O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 357
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Senti que um nó se formava na boca de meu estômago.
— O que houve com ela?
O médico olhou para mim sem responder e pela primeira vez pude perceber um sinal
de dúvida em seu olhar.
— Não sei — disse.
Percorremos um corredor curto pontilhado por portas metálicas. O Dr. Sanjuán ia na
frente, segurando um molho de chaves nas mãos. Tive a impressão de ouvir vozes atrás
das portas, sussurrando à nossa passagem, afogadas entre risos e prantos. O quarto
ficava no final do corredor. O médico abriu a porta e parou na soleira, olhando-me sem
expressão alguma.
— Quinze minutos — disse.
Entrei no quarto e ouvi que trancava a porta às minhas costas. A minha frente, abria-
se um aposento de teto alto e paredes brancas que se refletiam no chão de lajotas
brilhantes. De um lado, havia uma cama de armação metálica envolvida por uma cortina de
gaze, vazia. Uma ampla janela contemplava o jardim sob a neve, as árvores e, mais
adiante, a silhueta do lago. Não reparei nela até me aproximar mais alguns passos.
Estava sentada numa poltrona na frente da janela. Vestia um camisolão branco e tinha
o cabelo preso numa trança. Rodeei a poltrona e olhei para ela. Seus olhos permaneciam
imóveis. Quando me ajoelhei a seu lado, nem pestanejou. Quando pousei a mão sobre a
sua, não moveu um único músculo do corpo. Percebi então as bandagens que cobriam
seus braços, do punho aos cotovelos, e as cintas que a mantinham presa à poltrona.
Acariciei seu rosto, recolhendo uma lágrima que deslizava pela face.
— Cristina — murmurei.
Seu olhar permaneceu preso em lugar nenhum, alheio à minha presença. Puxei uma
cadeira e sentei na frente dela.
— Sou eu, David — murmurei.
Durante 15 minutos permanecemos assim, em silêncio, sua mão na minha, seu olhar
extraviado e minhas palavras sem resposta. Em algum momento, ouvi que a porta se abria
de novo e senti que alguém segurava meu braço com delicadeza e me puxava. Era o Dr.
Sanjuán. Deixei que me conduzisse até o corredor sem oferecer resistência. O médico
fechou a porta e me acompanhou de volta àquele escritório gelado. Desmoronei na cadeira
e olhei para ele, incapaz de articular uma palavra.
— Quer que o deixe sozinho por alguns minutos? — perguntou.