O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 355

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 7 Dez minutos mais tarde, encontrava-me às portas de um grande jardim semeado de folhas secas presas na neve. Mais adiante, a Villa San Antonio erguia-se como uma sentinela sombria envolta no reflexo de luz dourada que suas janelas emanavam. Atravessei o jardim sentindo que meu coração batia com força e que, apesar do frio, minhas mãos estavam suadas. Subi as escadas que conduziam à entrada principal. A entrada era uma sala cujo assoalho formava um tabuleiro de xadrez e que conduzia a uma escadaria, na qual se via uma jovem vestida de enfermeira, segurando pela mão um homem trêmulo que parecia eternamente suspenso entre os degraus, como se toda a sua existência tivesse ficado pendurada num sopro. — Boa tarde — disse uma voz à minha direita. Tinha os olhos negros e severos, as feições desenhadas sem nenhum sinal de simpatia e aquele ar grave de quem aprendeu a não esperar nada além de más notícias. Devia andar pela casa dos 50 e, embora envergasse o mesmo uniforme que a jovem enfermeira que acompanhava o velho, tudo nela respirava autoridade e categoria. — Boa tarde. Estou procurando uma pessoa chamada Cristina Sagnier. Tenho razões para acreditar que está hospedada aqui... Examinou-me sem pestanejar. — Aqui ninguém se hospeda, cavalheiro. Isso não é um hotel ou uma residência. — Desculpe. Acabo de fazer uma longa viagem em busca dessa pessoa... — Não se desculpe — disse a enfermeira. — Posso perguntar se é parente ou amigo próximo? — Meu nome é David Martín. Cristina Sagnier está aqui? Por favor... A expressão da enfermeira suavizou-se. Seguiram-se uma sombra de sorriso amável e um aceno afirmativo. Respirei fundo. — Sou Teresa, a enfermeira-chefe do turno da noite. Se tiver a gentileza de me seguir, Sr. Martín, vou levá-lo até o escritório do Dr. Sanjuán. — Como está a Srta. Sagnier? Posso vê-la? Outro sorriso leve e impenetrável. — Por aqui, por favor. * * * O aposento descrevia um retângulo sem janelas, encaixado entre quatro paredes pintadas de azul e iluminado por dois lustres que pendiam do teto e emitiam uma luz