PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
simples olhada e fiquei convencido de que seria melhor deitar vestido em cima da cama e não me enfiar entre os lençóis para confraternizar com o que estivesse grudado neles. Usei uma manta esfiapada que encontrei no armário como cobertor— falando de cheiro, essa pelo menos cheirava a naftalina— e apaguei a luz, tentando imaginar que me encontrava no tipo de suíte que alguém com 100 mil francos no banco podia se permitir. Mal consegui pregar o olho.
Deixei o hotel no meio da manhã e encaminhei-me para a estação. Comprei um bilhete de primeira classe com a esperança de dormir no trem tudo o que não tinha dormido naquele antro e, vendo que ainda dispunha de 20 minutos antes da partida, fui até uma fila de cabines de telefones públicos. Dei à telefonista o número que Ricardo Salvador tinha me passado, dos vizinhos de baixo.— Gostaria de falar com Emilio, por favor.— Alô?— Meu nome é David Martín. Sou amigo do Sr. Ricardo Salvador. Disse que poderia ligar para esse número em caso de urgência.— Certo... Vou chamar, pode esperar um momento? Olhei o relógio da estação.— Sim, posso. Obrigado. Passaram-se mais de três minutos antes que ouvisse passos, e a voz de Ricardo
Salvador me enchesse de tranqüilidade.— Martín? Está tudo bem?— Sim.— Graças a Deus. Li no jornal sobre Roures e fiquei muito preocupado. Onde está?— Sr. Salvador, não tenho muito tempo agora. Preciso me ausentar da cidade.— Tem certeza de que está bem?— Sim. Ouça: Alicia Marlasca está morta.— A viúva? Morta? Um longo silêncio. Tive a impressão de que Salvador soluçava e me arrependi de ter dado a notícia com tão pouca delicadeza.— Ainda está aí?— Estou...— Liguei para avisar que deve ter cuidado. Irene Sabino está viva e anda me seguindo. Tem alguém com ela. Acho que é Jacó.— Jacó Corbera?