O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 350
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Até de longe tinham aquele aspecto inconfundível das más notícias. A brasa de um
cigarro no azul da noite, silhuetas apoiadas contra o negro das paredes e espirais de vapor
no hálito de três figuras guardando o portão da casa da torre. O inspetor Victor Grandes,
em companhia de seus oficiais de caça, Marcos e Castelo, formavam um comitê de boas-
vindas. Não foi difícil imaginar que já tinham encontrado o corpo de Alicia Marlasca no
fundo da piscina de sua casa em Sarrià e que minha cotação na lista negra tinha subido
vários pontos. Assim que os vi, parei e mergulhei nas sombras da Rua. Fiquei observando
alguns instantes, até ter certeza de que não tinham reparado na minha presença a apenas
50 metros deles. Distingui o perfil de Grandes no reflexo do lampião pendurado na parede.
Retrocedi lentamente, ao abrigo da escuridão que inundava as Ruas e enfiei-me pelo
primeiro beco, perdendo-me no emaranhado de passagens e arcos da Ribera.
Dez minutos depois chegava às portas da Estação da França. Os guichês estavam
fechados, mas ainda se podiam ver vários trens alinhados nas plataformas sob a grande
abóbada de cristal e aço. Consultei o painel de horários e verifiquei que, tal como temia,
não havia partidas previstas até o dia seguinte. Não podia me arriscar a voltar para casa e
tropeçar com Grandes e companhia. Alguma coisa me dizia que aquela visita à delegacia
ofereceria pensão completa e que nem a boa atuação do advogado Valera conseguiria me
tirar tão facilmente quanto da última vez.
Decidi passar a noite num hotelzinho barato que ficava em frente ao edifício da Bolsa,
na praça Palacio, onde conta a lenda que sobreviviam alguns cadáveres ambulantes de
antigos especuladores, cuja aritmética caseira e cobiça tinham explodido na própria cara.
Escolhi um antro semelhante porque supus que nem a Parca viria me procurar ali.
Registrei-me sob o nome de Antonio Miranda e paguei adiantado. O porteiro, um indivíduo
com aspecto de molusco, que parecia colado na guarita que fazia às vezes de recepção,
toalheiro e loja de suvenires, me entregou a chave, um sabonete da marca El Cid
Campeador que fedia a alvejante e que me pareceu usado, e informou que se quisesse
companhia feminina podia me mandar uma dama que atendia pelo apelido de Tuerta,
assim que ela regressasse de uma consulta em domicílio.
— Vai deixá-lo como novo — garantiu.
Recusei a oferta alegando um princípio de lumbago e escapei pelas escadas
desejando-lhe boa-noite. O quarto tinha o aspecto e o tamanho de um sarcófago. Uma