O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 352
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Não tenho certeza se é ele mesmo. Acho que sabem que estou na pista deles e
estão tentando silenciar todos os que falaram comigo. Tenho certeza de que tinha razão...
— Mas por que Jacó voltaria agora? — perguntou Salvador. — Não faz sentido.
— Não sei. Preciso ir agora. Só queria avisá-lo.
— Não se preocupe comigo. Se esse filho da puta aparecer por aqui, estarei
preparado. Faz 25 anos que espero por ele.
O chefe da estação anunciou a partida do trem com um apito.
— Não confie em ninguém, está ouvindo? Ligarei assim que voltar à cidade.
— Obrigado por ligar, Martín. Tenha muito cuidado.
O trem começava a deslizar pela plataforma, quando me refugiei em minha cabine e
desabei na poltrona. Abandonei-me ao hálito morno da calefação e ao suave ruído do
trem. Deixamos a cidade para trás, atravessando o bosque de fábricas e chaminés que a
rodeava e escapando do sudário de luz escarlate que a cobria. Lentamente, a terra agreste
de hangares e trens abandonados em estacionamentos foi se diluindo num plano infinito
de campos e colinas coroados por casarões e torres de observação, bosques e rios.
Carroções e aldeias surgiam entre bancos de névoa. Pequenas estações passavam ao
largo, enquanto campanários e casas de campo desenhavam miragens a distância.
Em algum momento do trajeto, adormeci e, quando despertei, a paisagem tinha
mudado completamente. Atravessávamos vales escarpados e penhascos de pedra que se
erguiam entre lagos e riachos. O trem margeava grandes bosques que escalavam as
encostas de montanhas que pareciam infinitas. De repente, o novelo de montes e túneis
cortados na pedra abriu-se num grande vale semeado de planícies infinitas, onde manadas
de cavalos selvagens corriam sobre a neve, e pequenas aldeias de casas de pedra se
distinguiam a distância. Os picos dos Pirineus erguiam-se do outro lado, as escarpas
nevadas acesas pelo âmbar do crepúsculo. À frente, um agrupamento de casas e edifícios
se aninhava sobre uma colina. O cobrador apareceu na cabine e sorriu.
— Próxima parada, Puigcerdà — anunciou.
O trem parou exalando uma tempestade de vapor que inundou a plataforma. Desci e
me vi envolvido por aquela névoa que cheirava a eletricidade. Mas logo ouvi o sino do
chefe da estação e escutei o trem retomando a marcha outra vez. Lentamente, enquanto
os vagões desfilavam sobre os trilhos, o contorno da estação foi emergindo como uma
miragem a meu redor. Estava sozinho na plataforma. Uma fina cortina de neve em flocos
finos caía com infinita lentidão. Um sol avermelhado despontava a oeste sob as nuvens e