O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 346

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA cumprimentou com um aceno, sorridente. Amaldiçoei minha sorte e devolvi o cumprimento. O patrão fez sinal para que me juntasse a ele. Arrastei-me até a porta do restaurante e entrei. — Que agradável surpresa encontrá-lo aqui, querido amigo. Estava justamente pensando em você — disse Corelli. Apertei sua mão sem vontade. — Pensei que estivesse fora da cidade — comentei. — Voltei antes do previsto. Posso convidá-lo para alguma coisa? Fiz que não. Mandou que sentasse à sua mesa e obedeci. Em seu estilo habitual, o patrão vestia um terno de três peças e uma gravata de seda vermelha. Impecável como era normal em sua pessoa, embora sentisse falta de alguma coisa. Levei alguns segundos para descobrir. O broche do anjo não estava na lapela. Corelli seguiu meu olhar e concordou. — Lamentavelmente, perdi o broche, e não sei onde foi — explicou. — Espero que não fosse muito valioso. — Valor puramente sentimental. Mas vamos falar de coisas mais importantes. Como vai você, meu amigo? Senti muita falta de nossas conversas, apesar de um ou outro desacordo esporádico. É difícil para mim encontrar bons interlocutores. — Está me superestimando, Sr. Corelli. — Muito pelo contrário. Um breve silêncio transcorreu sem outra companhia além daquele olhar sem fundo. Pensei comigo mesmo que ainda preferia quando embarcava em sua conversa de sempre. Quando parava de falar, seu aspecto parecia mudar e o ar ficava mais carregado a seu redor. — Está hospedado aqui? — perguntei para romper o silêncio. — Não, continuo na casa ao lado do Parque Güell. Tinha um encontro marcado com um amigo hoje à tarde, mas parece que se atrasou. A informalidade de algumas pessoas é deplorável. — Ocorreu-me que não deve haver muita gente que se atreva a lhe dar um bolo, Sr. Corelli. O patrão olhou-me nos olhos. — Não muitas. De fato, a única que me vem à mente é você.