O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 345

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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Consumi o resto daquela semana percorrendo Barcelona em busca de alguém que se lembrasse de ter visto Cristina no último mês. Visitei os lugares que tinha compartilhado com ela e refiz em vão a rota predileta de Vidal por cafés, restaurantes e lojas de luxo. Mostrava a todos que encontrava uma das fotografias do álbum que Cristina tinha deixado em minha casa e perguntava se a tinham visto recentemente. Em algum lugar, achei alguém que a reconheceu e que recordava de tê-la visto em companhia de Vidal numa ocasião qualquer. Alguns conseguiram até recordar seu nome. Ninguém a tinha visto nas últimas semanas. No quarto dia de busca, comecei a suspeitar que Cristina tinha saído da casa da torre naquela manhã em que fui comprar as passagens de trem e se evaporado da superfície da terra.
Lembrei então que a família Vidal mantinha um apartamento sempre reservado no hotel Espanha da Rua Sant Pau, atrás do Liceo, para uso e gozo dos membros da família que não tivessem vontade de voltar para Pedralbes de madrugada depois de uma noite na ópera. Segundo constava, pelo menos nos anos de glória, o próprio Vidal e o senhor seu pai utilizavam o quarto para entreter senhoras e senhoritas cuja presença nas residências oficiais de Pedralbes, seja pela alta ou pela baixa estirpe da interessada, resultaria em falatórios pouco convenientes. Mais de uma vez, quando eu ainda vivia na pensão de dona Carmen, ele tinha me oferecido o quarto para a eventualidade, como dizia ele, de querer despir uma dama em algum lugar que não desse medo. Não pensava que Cristina tivesse escolhido aquele lugar como refúgio, se é que sabia de sua existência, mas era o último lugar da minha lista e nenhuma outra possibilidade me ocorria. Entardecia quando cheguei ao hotel Espanha e pedi para falar com o gerente fazendo alarde de minha condição de amigo do Sr. Vidal. Quando mostrei a fotografia de Cristina, o gerente, um cavalheiro que zelava muito pela discrição, sorriu com cortesia e disse que " outros " empregados do Sr. Vidal já tinham passado por lá perguntando por aquela mesma pessoa semanas antes e que ele lhes dissera o mesmo que diria a mim. Nunca tinha visto aquela senhora no hotel. Agradeci sua gentileza glacial e encaminhei-me para a saída derrotado.
Ao passar diante da vidraça que dava para o restaurante, tive a impressão de registrar um perfil familiar com o rabo do olho. O patrão estava sentado numa das mesas, o único hóspede do restaurante, degustando o que parecia ser um potinho de torrões de açúcar para café. Estava disposto a desaparecer a toda velocidade, quando ele se virou e me