O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 344
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Tem certeza de que Barceló disse isso mesmo?
Isabella fez que sim.
— O que foi que eu disse agora? — perguntou Isabella alarmada.
— Nada.
— Tem alguma coisa aí que não está me contando...
— Cristina não está aqui. Não está aqui desde o dia em que o Sr. Sempere morreu.
— Onde está então?
— Não sei.
Pouco a pouco fomos ficando em silêncio, enrodilhados na poltrona diante do fogo, e
quando a madrugada já ia longe, Isabella adormeceu. Rodeei-a com o braço e fechei os
olhos, pensando em tudo o que tinha dito e tentando encontrar algum significado naquilo.
Quando a claridade do dia acendeu as vidraças da galeria, abri os olhos e descobri que
Isabella já estava acordada, me olhando.
— Bom dia — disse eu.
— Estive pensando — insinuou.
— E?
— Estou pensando em aceitar a proposta do filho do Sr. Sempere.
— Tem certeza?
— Não — riu.
— O que os seus pais vão dizer?
— Vai ser um desgosto para eles, mas vai passar. Preferiam que escolhesse um
próspero comerciante de salsichas e salames a um de livros, mas vão ter que aceitar.
— Podia ser pior — comentei.
Isabella concordou.
— Sim. Poderia acabar com um escritor.
Olhamo-nos longamente, até que Isabella levantou da poltrona. Pegou o casaco,
vestiu e abotoou-o de costas para mim.
— Tenho que ir — disse.
— Obrigado pela companhia — respondi.
— Não a deixe escapar — disse Isabella. — Vá atrás dela, onde quer que esteja, e
diga que a ama mesmo que seja mentira. Nós mulheres gostamos de ouvir isso.
Nesse exato momento, inclinou-se e roçou seus lábios nos meus. Apertou minha mão
com força e foi embora sem dizer adeus.