O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 343

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Você conhece essa mulher — disse. — A mulher que matou o Sr. Sempere... — Acho que sim. Irene Sabino. — Não é aquela das velhas fotografias que encontramos no quarto do fundo? A atriz? Concordei. — E para que ela ia querer esse livro? — Não sei. Mais tarde, depois de jantar uma parte dos manjares de Can Gispert, sentamos no grande poltronão diante do fogo. Cabíamos os dois e Isabella apoiou a cabeça em meu ombro, enquanto olhávamos o fogo. — Na outra noite sonhei que tinha um filho — disse ela. — Sonhei que me chamava, mas eu não conseguia ouvir nem chegar até ele porque estava presa num lugar onde fazia muito frio e não podia me mover. Ele chamava e eu não podia ir até ele. — É só um sonho — respondi. — Parecia real. —No mínimo, deveria escrever essa história — arrisquei. Isabella negou. — Andei pensando muito nisso. E resolvi que prefiro viver a vida a escrevê-la. Não me leve a mal. — Pois me parece uma sábia decisão. — E você? Vai viver? — Temo que minha vida já esteja um tanto vivida. — E aquela mulher? Cristina? Respirei fundo. — Cristina foi embora. Voltou para o marido. Outra sábia decisão. Isabella afastou-se de mim e me olhou, franzindo as sobrancelhas. — O que foi? — perguntei. — Acho que você está enganado. — Em quê? — No outro dia dom Gustavo Barceló esteve em casa e falamos de você. Disse que tinha visto o marido de Cristina, o tal de... — Pedro Vidal. — Esse mesmo. E que ele havia comentado que Cristina tinha ido embora com você, que não sabia dela há mais de um mês. De fato, achei estranho quando não a encontrei aqui com você, mas não me atrevi a perguntar...