O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 342

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — ... não está mais lá. Desapareceu — completou Isabella. — Olhei o registro, pois o Sr. Sempere anotava todos os livros que vendia ali, com data e preço, mas não havia nada. — O filho sabe disso? — Não. Não contei a mais ninguém senão você. Ainda estou tentando compreender o que houve na livraria naquela tarde. E o porquê. Pensava que talvez soubesse. — A mulher tentou levar o livro à força e na briga o Sr. Sempere sofreu um ataque do coração. Eis o que houve — disse. — E tudo por causa da merda de um livro meu. Senti que minhas entranhas se contorciam. — E tem mais — disse Isabella. — O quê? — Dias depois encontrei dom Anacleto na escada e ele disse que já sabia de onde se lembrava da tal mulher, que no dia em que a viu a ficha não caiu imediatamente, mas agora tinha quase certeza de tê-la visto antes, muitos anos atrás, no teatro. — No teatro? Isabella fez que sim. Mergulhei num longo silêncio. Isabella me observava, inquieta. — Agora não vou ficar tranqüila se deixá-lo aqui sozinho. Não devia ter dito nada. — Não, fez bem. Estou bem. De verdade. Isabella negou. — Vou ficar aqui com você essa noite. — E a sua reputação? — É a sua que vai correr perigo. Vou até a loja de meus pais um instantinho para ligar para a livraria avisando. — Não precisa, Isabella. — Não precisaria se você tivesse aceito que vivemos no século XX e mandado instalar um telefone neste mausoléu. Voltarei em 15 minutos. Não adianta discutir. Na ausência de Isabella, a certeza de que a morte de meu velho amigo Sempere pesava sobre minha consciência começou a calar fundo. Lembrei que o velho livreiro sempre tinha dito que os livros tinham alma, a alma de quem os tinha escrito e de quem os tinha lido e sonhado com eles. Compreendi então que até o último momento tinha lutado para me proteger, sacrificando-se para salvar aquele pedaço de papel e tinta que ele acreditava que guardava minha alma escrita. Quando Isabella retornou, carregada com uma bolsa de quitutes da mercearia de seus pais, bastou que me olhasse para adivinhar.