O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 341
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Voltei a ser um produtor independente — disse.
Acompanhou-me escadas acima e quando já estava se despedindo, vi que hesitou.
— O que foi? — perguntei.
— Tinha pensado em não dizer nada, mas... Prefiro que saiba por mim do que por
outras pessoas. É sobre o Sr. Sempere.
Entramos e sentamos na galeria diante do fogo, que Isabella reatiçou jogando mais
lenha. As cinzas de Lux Aeterna de Marlasca continuavam lá e minha antiga assistente me
deu uma olhada que eu deveria emoldurar.
— O que ia me dizer a respeito de Sempere?
— Soube por dom Anacleto, um dos vizinhos do prédio. Contou que na tarde em que o
Sr. Sempere faleceu, ele o viu discutir com alguém na loja. Estava voltando para casa e
disse que dava para ouvi-los até na Rua.
— Estava discutindo com quem?
— Era uma mulher. Um pouco mais velha. Dom Anacleto tinha a impressão de nunca
tê-la visto por ali, embora lhe parecesse vagamente familiar, mas com dom Anacleto nunca
se sabe, gosta mais dos advérbios que de qualquer guloseima.
— Ele ouviu sobre o que discutiam?
— Acha que estavam falando de você.
— De mim?
Isabella concordou.
— Sempere filho tinha saído um instante para entregar um pedido na Rua Canuda.
Não ficou fora mais de 15 minutos. Quando retornou, encontrou o pai caído no chão, atrás
do balcão. Quando o médico chegou já era tarde demais...
Parecia que o mundo tinha desabado em cima de mim.
— Não sei se devia ter lhe dito... — murmurou Isabella.
— Não. Fez muito bem. E dom Anacleto não disse mais nada sobre essa mulher?
— Só que estavam discutindo. Achou que era sobre um livro. Um livro que ela queria
comprar e o Sr. Sempere não queria vender.
— E por que falaram de mim? Não entendo.
— Porque o livro era seu. Os Passos do Céu. Aquele único exemplar que o Sr.
Sempere guardava em sua coleção pessoal e que não estava à venda...
Fui invadido por uma obscura certeza.
— E o livro...? — comecei.