O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 340

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 4 De volta à casa, paramos numa mercearia da Rua Comercio para comprar leite e pão. Isabella disse que ia pedir a seu pai que mandasse uma remessa de suas iguarias e que era melhor que tratasse de comer tudo. — E como vão as coisas na livraria? — perguntei. — As vendas caíram muitíssimo. Acho que as pessoas não sentem vontade de ir até lá, porque lembram do pobre Sr. Sempere. E a verdade é que, do jeito que estão as contas, as perspectivas não são nada boas. — E como estão as contas? — Bem mal. Nas semanas em que trabalhei lá estive refazendo o balanço e verifiquei que o Sr. Sempere, que Deus o tenha em sua glória, era um desastre. Dava livros de presente para quem não podia pagar ou emprestava e não lhe devolviam. Comprava coleções, embora soubesse bem que nunca ia conseguir vendê-las, porque os proprietários ameaçavam queimá-las ou simplesmente jogar tudo fora. Mantinha à base de esmolas um monte de poetas de quinta categoria que não tinham onde cair mortos. E por aí vai, pode imaginar. — Credores à vista? — Uma média de dois por dia, sem contar as cartas e os avisos do banco. A boa notícia é que não faltam ofertas. — De compra? — Uma dupla de salsicheiros de Vic está muito interessada no local. — E o que diz Sempere filho? — Que do porco tudo se aproveita. O realismo não é seu forte. Diz que conseguiremos superar, que devemos ter fé. — E você não tem? — Tenho fé na aritmética e quando faço os números concluo que em dois meses as vitrines da livraria estarão repletas de chouriços e lingüiças brancas. — Encontraremos uma solução. Isabella sorriu. — Esperava que dissesse isso. E falando de contas pendentes, diga que não está mais trabalhando para o patrão. Mostrei as mãos limpas.