PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Amanhã em meu consultório, às quatro da tarde. Aqui não tenho nem condições nem o instrumental para examiná-lo corretamente.
Fechou a maleta e despediu-se de mim com uma saudação cortês. Isabella acompanhou-o até a porta e ouvi que sussurravam no patamar por alguns minutos. Recoloquei as roupas e esperei como um bom paciente, sentado na cama. Ouvi a porta se fechar e os passos do médico se afastando escada abaixo. Sabia que Isabella estava no saguão, esperando um segundo antes de entrar no quarto. Quando finalmente o fez, foi recebida com um sorriso.— Vou fazer alguma coisa de comer.— Não tenho fome.— Não me interessa. Vai comer e depois vamos dar uma volta para pegar ar. E ponto final.
Isabella preparou um caldo que, fazendo um esforço, enchi de pedacinhos de pão e engoli com expressão afável, embora para mim tivessem sabor de pedra. Deixei o prato limpo e mostrei a Isabella, que ficou de guarda ao meu lado, como um sargento, enquanto eu comia. Em seguida, foi comigo até o quarto e procurou um casaco no armário. Enfioume luvas e cachecol e tratou de me empurrar porta afora. Quando chegamos ao portão soprava um vento frio, mas o céu reluzia com um sol crepuscular que pontilhava as Ruas de âmbar. Pegou meu braço e começamos a caminhar.— Como se estivéssemos noivos— disse eu.— Muito engraçadinho. Andamos até o Parque da Ciudadela e penetramos nos jardins que circundavam o umbráculo. Chegamos até o lago do grande chafariz e nos sentamos num banco.— Obrigado— murmurei. Isabella não respondeu.— Não lhe perguntei como vai— comecei.— O que não é nenhuma novidade.— E então, como vai? Isabella deu de ombros.— Meus pais estão felicíssimos desde que voltei. Dizem que você foi uma boa influência. Mal sabem eles... A verdade é que estamos nos dando bem melhor. Também é verdade que não os vejo muito. Passo quase todo o tempo na livraria.— E Sempere? Como está reagindo à morte do pai?— Não muito bem.