O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 337
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Aí está o paciente, doutor. Não dê atenção a nada do que disser, pois não passa de
um mentiroso — anunciou Isabella.
O médico me deu uma olhada, avaliando meu grau de hostilidade.
— Esteja à vontade, doutor — convidei. — Como se eu não estivesse aqui.
O médico começou o ritual sutil de medição da pressão, checagens variadas, exame
das pupilas, da boca, perguntas de índole misteriosa e olhares de canto de olho que
constitui a base da ciência médica. Quando examinou os cortes que Irene Sabino tinha
feito em meu peito com uma navalha, levantou a sobrancelha e olhou para mim.
— E isso aqui?
— A explicação é longa, doutor.
— Foi o senhor mesmo quem se feriu?
Neguei.
— Vou deixar uma pomada, mas temo que vai ficar com uma cicatriz.
— Creio que a idéia era exatamente essa.
O doutor continuou com seu reconhecimento. Eu me submeti a tudo com docilidade,
contemplando Isabella, que observava ansiosa da porta. Percebi o quanto tinha sentido a
sua falta e o quanto apreciava sua companhia.
— Belo susto — murmurou com reprovação.
O médico examinou minhas mãos e franziu a testa ao ver as pontas dos dedos quase
em carne viva. Tratou de fazer um curativo em cada uma, resmungando ininteligivelmente.
— Quanto tempo faz que não come?
Dei de ombros. O médico trocou um olhar com Isabella.
— Não há motivo para alarme, mas gostaria de examiná-lo em meu consultório
amanhã, no mais tardar.
— Temo que não será possível, doutor — disse.
— Lá estaremos — garantiu Isabella.
— Entretanto, recomendo que comece a comer alguma coisa quente, primeiro um
caldo, depois sólidos, muita água, mas nada de café nem excitantes, e sobretudo repouso.
E pegue um pouco de sol e ar, mas sem fazer esforço. Está com um quadro clássico de
esgotamento e desidratação, e um princípio de anemia.
Isabella suspirou.
— Não é nada — aventurei.
O médico me olhou duvidando e levantou.