O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 336

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Quando abri a porta, Isabella deu um passo para trás e contemplou-me horrorizada. — Sou eu, Isabella. Isabella desviou de mim e foi direto para a galeria abrir as janelas de uma só vez. Em seguida foi até o banheiro e começou a encher a banheira. Pegou meu braço e me arrastou para lá. Mandou que me sentasse na borda e me olhou nos olhos, levantou minhas pálpebras com os dedos, balançando a cabeça silenciosamente. Sem dizer uma palavra, começou a tirar minha camisa. — Isabella, não estou de bom humor. — Que cortes são esses? Mas o que andou fazendo? — São apenas uns arranhões. — Quero que um médico veja isso. — Não. — Não se atreva a dizer não para mim — replicou com dureza. — Agora vai entrar nessa banheira e trate de se lavar com água e sabão e depois se arrumar. Tem duas opções: ou faz você mesmo ou quem vai fazer sou eu. Não pense que seria um problema para mim. Sorri. — Já sei que não. — Então faça o que digo. Enquanto isso, vou buscar um médico. Ia dizer alguma coisa, mas ela ergueu a mão e silenciou-me. — Não diga nem uma palavra. Se pensa que é a única pessoa que sente a dor das coisas, está muito enganado. E se não se importa em morrer como um cão, pelo menos tenha a decência de lembrar que outras pessoas se importam, não sei nem por que, para dizer a verdade. — Isabella... — Já para a água. E faça o favor de tirar a calça e a cueca. — Eu sei tomar banho. — Quem diria. Enquanto Isabella ia buscar o médico, rendi-me às suas ordens e me submeti a um batismo de água fria e sabão. Não tinha me lavado desde o enterro e minha imagem no espelho era a de um lobo. Tinha os olhos injetados de sangue e a pele de uma palidez doentia. Enfiei roupas limpas e sentei para esperar na galeria. Isabella retornou em 20 minutos em companhia de um médico que achei que já tinha visto nas redondezas do bairro.