O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 335

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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Passei vários dias sem sair de casa, dormindo fora de hora, mal tocando em comida. À noite, sentava na galeria diante do fogo, escutava o silêncio, esperando ouvir passos na porta, pensando que Cristina ia voltar, que assim que soubesse da morte do Sr. Sempere voltaria para mim, nem que fosse por pena, o que naquele momento já me bastava. Quando fazia quase uma semana da morte do livreiro e já sabia que Cristina não ia voltar, comecei a subir de novo para o escritório. Resgatei o manuscrito do patrão do baú e comecei a reler, saboreando cada frase e cada parágrafo. A leitura me inspirava nojo e, ao mesmo tempo, uma obscura satisfação. Quando pensava nos 100 mil francos que pareciam tanta coisa no início, sorria com meus botões, pensando que aquele filho da mãe tinha me comprado muito barato. A vaidade embaçava a amargura, e a dor fechava a porta da consciência. Num ato de soberba, reli Lux Aeterna, a obra de meu predecessor, Diego Marlasca, e, em seguida, entreguei suas páginas às chamas da lareira. Onde ele tinha fracassado, eu triunfaria. Onde ele tinha se perdido pelo caminho, eu encontraria a saída para o labirinto.
Voltei ao trabalho no sétimo dia. Esperei que desse meia-noite e sentei na escrivaninha. Uma página limpa no tambor da Underwood e a cidade negra atrás das janelas. As palavras e imagens brotaram de minhas mãos como se estivessem esperando com raiva na prisão da alma. As páginas fluíam sem consciência nem medida, sem outra vontade senão a de enfeitiçar e envenenar os sentidos e o pensamento. Tinha parado de pensar no patrão, em suas recompensas ou exigências. Pela primeira vez na vida, escrevia para mim e para mais ninguém. Escrevia para atear fogo ao mundo e consumirme com ele. Trabalhava todas as noites até cair exausto. Batia nas teclas da máquina até os dedos sangrarem e a febre nublar minha vista.
Certa manhã de janeiro, quando já tinha perdido a noção de tempo, ouvi alguém bater na porta. Estava estendido na cama, a vista perdida na velha fotografia de Cristina menina, caminhando pela mão de um desconhecido naquele cais que penetrava num mar de luz, naquela imagem que agora parecia ser a única coisa boa que me restava e a chave de todos os mistérios. Ignorei as batidas por vários minutos, até que ouvi sua voz e percebi que não ia desistir.
— Abre de uma vez, droga. Sei que você está aí e não pretendo ir embora enquanto não abrir essa porta ou enquanto eu não derrubá-la.