PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
viesse ocupar nosso lugar. Não sabia se havíamos criado Deus à nossa imagem e semelhança ou se Ele nos tinha criado sem saber muito bem o que fazia. Acreditava que Deus, ou o que quer que seja que nos trouxe para esse mundo, vivia em cada uma de nossas ações, em cada uma de nossas palavras e se manifestava em tudo o que nos fazia ser algo além de simples figuras de barro. O Sr. Sempere acreditava que Deus vivia um pouco, ou muito, nos livros e por isso dedicou sua vida a partilhá-los, a protegê-los e a garantir que suas páginas, como nossas lembranças e nossos desejos, não se perdessem jamais, pois acreditava, e me fez acreditar também, que, enquanto restar uma só pessoa no mundo capaz de lê-los e vivê-los, haverá um pedaço de Deus ou de vida. Sei que meu amigo não gostaria que nos despedíssemos dele com orações e cânticos. Sei que para ele bastaria saber que seus amigos, todos os que vieram aqui hoje para a despedida, nunca o esquecerão. Não tenho dúvida de que o Senhor, embora o velho Sempere não esperasse por isso, acolherá nosso querido amigo e sei também que viverá para sempre nos corações de todos os que estamos aqui agora, de todos que algum dia descobriram a magia dos livros graças a ele e de todos que, mesmo sem conhecê-lo, algum dia atravessariam as portas de sua pequena livraria onde, como ele gostava de dizer, a história sempre acabava de começar. Descanse em paz, amigo Sempere, e que Deus nos dê a oportunidade de honrar sua lembrança e de agradecer o privilégio de tê-lo conhecido.
Um infinito silêncio apoderou-se do recinto, quando o paroco acabou de falar e retrocedeu alguns passos, abençoando o ataúde e baixando os olhos. A um sinal do chefe dos empregados da funerária, os coveiros se adiantaram e desceram o caixão lentamente com cordas. Lembro do som que fez ao tocar o fundo e dos soluços abafados entre as pessoas. Lembro que fiquei ali, incapaz de dar um passo, vendo como os coveiros cobriam o túmulo com a grande lápide de mármore em que se lia apenas a palavra Sempere e sob a qual sua esposa Diana jazia há 26 anos.
Lentamente, o cortejo foi se retirando rumo às portas do cemitério, onde as pessoas se separaram em grupos sem saber para onde ir, pois ninguém queria ir embora, deixando atrás de si o pobre Sr. Sempere. Barceló e Isabella, um de cada lado, levaram o filho do livreiro. Fiquei ali até que todos se afastaram e só então ousei me aproximar do túmulo de Sempere. Ajoelhei e pousei a mão sobre o mármore.— Até breve— murmurei. Ouvi quando se aproximava e soube que era ele, antes mesmo de vê-lo. Levantei e virei. Pedro Vidal estendeu a mão e o sorriso mais triste que já vi.— Não vai apertar minha mão?— perguntou.