O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 332

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 2 A multidão tinha se reunido na porta do cemitério esperando a chegada do carro fúnebre. Ninguém se atrevia a falar. Ouvia-se o barulho do mar à distância e o eco do trem de carga deslizando para a cidade de fábricas que se estendia nas costas do campo-santo. Fazia frio e os flocos de neve flutuavam ao vento. Pouco depois das três da tarde, o carro fúnebre, puxado por cavalos negros, penetrou numa avenida de Icaria margeada de ciprestes e velhos armazéns. Sempere filho e Isabella acompanhavam o corpo. Seis colegas da associação de livreiros de Barcelona, dom Gustavo entre eles, ergueram o caixão e entraram no recinto. As pessoas os seguiram, formando um cortejo silencioso que percorreu Ruas e pavilhões do cemitério sob um manto de nuvens baixas que ondulavam como uma lâmina de mercúrio. Ouvi alguém dizer que o filho do livreiro parecia ter envelhecido 15 anos numa noite. Referia-se a ele como o Sr. Sempere, pois agora seria o responsável pela livraria: por quatro gerações aquele bazar encantado da Rua Santa Ana nunca tinha mudado de nome, sempre sob o comando de algum Sr. Sempere. Isabella estava de braços dados com ele e dava a impressão de que, se não estivesse ali, ele desabaria como uma marionete sem fios. O paroco da igreja de Santa Ana, um veterano da idade do falecido, esperava ao pé do túmulo, uma lápide de mármore sóbria e sem adornos que quase passava despercebida. Os seis livreiros que tinham carregado o ataúde deixaram-no descansar sobre o túmulo. Barceló, que tinha me visto, cumprimentou-me com a cabeça. Preferi ficar atrás, não sei se por covardia ou por respeito. De lá, podia ver o túmulo de meu pai, cerca de 30 metros além. Assim que o cortejo se dispôs ao redor da tumba, o padre levantou os olhos e sorriu. — O Sr. Sempere e eu fomos amigos por quase quarenta anos, e em todo esse tempo só falamos de Deus e dos mistérios da vida numa ocasião. Quase ninguém sabe disso, mas o amigo Sempere não pisava numa igreja desde o funeral de sua esposa, Diana, ao lado de quem o colocamos hoje, para que descansem um junto ao outro para sempre. Talvez por isso, todos pensassem que era um ateu. Mas era um homem de fé. Acreditava em seus amigos, na verdade das coisas e em algo em que não se atrevia a pôr um nome ou um rosto, pois dizia que para isso existíamos nós, os padres. O Sr. Sempere acreditava que todos fazíamos parte de algo e que, ao deixar esse mundo, nossas lembranças e nossos desejos não se perdiam, mas passavam a ser lembranças e desejos de quem