PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
estava fria, e olhei ao redor, para aquele mundo de páginas e sonhos que ele tinha criado. Desejei acreditar que Sempere continuava ali, entre seus livros e seus amigos. Ouvi alguns passos às minhas costas e virei. Barceló escoltava dois homens de semblante sombrio, vestidos de negro, cuja profissão era inquestionável.— Esses senhores vieram da funerária— disse. Ambos cumprimentaram-nos com gravidade profissional e aproximaram-se para examinar o corpo. Um deles, alto e seco, fez uma avaliação sumaríssima e indicou alguma coisa ao companheiro, que aprovou e anotou as indicações num caderninho de notas.
— Em princípio, o enterro será amanhã à tarde, no cemitério do Leste— disse Barceló.— Resolvi me encarregar do assunto, pois o filho, como vimos, está arrasado. E essas coisas, quanto antes...— Obrigado, dom Gustavo. O livreiro olhou para o velho amigo e sorriu entre lágrimas.— O que vamos fazer agora que o velho nos deixou sozinhos?— disse.— Não sei... Um dos empregados da funerária pigarreou discretamente, indicando que tinha algo a comunicar.— Se os senhores estiverem de acordo, meu colega e eu vamos buscar o ataúde e...— Faça o que tiver que fazer— cortei.— Alguma preferência no que diz respeito aos últimos ritos? Olhei para ele sem entender.— O falecido era religioso?— O Sr. Sempere acreditava nos livros— disse eu.— Entendo— respondeu, retirando-se. Olhei para Barceló, que deu de ombros.— Deixe que ele pergunte ao filho— acrescentei. Regressei para a parte da frente da livraria. Isabella me lançou um olhar interrogador e levantou do lado de Sempere filho. Aproximou-se e falei com ela sobre minhas dúvidas.
— O Sr. Sempere era muito amigo do padre da igreja de Santa Ana, aqui ao lado. Dizem por aí que os padres do arcebispado tentam afastá-lo há anos por rebeldia e insubordinação, mas como não podem com ele, preferiram esperar que morra, já que é bem velhinho.— É o homem de que precisamos— disse eu.— Pode deixar que falo com ele— disse Isabella.