O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 328
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Quando chegamos à livraria já tinha anoitecido. Um brilho dourado rompia o azul da
noite na porta da Sempere e Filhos, onde uma centena de pessoas tinha se reunido com
velas acesas nas mãos. Alguns choravam em silêncio, outros olhavam-se entre si sem
saber o que dizer. Reconheci alguns rostos, amigos e clientes de Sempere, gente à qual o
velho livreiro tinha dado livros de presente, leitores que tinham se iniciado na leitura com
ele. À medida que a notícia se espalhava pelo bairro, chegavam mais leitores e amigos
que não podiam acreditar que o Sr. Sempere estivesse morto.
As luzes da livraria estavam acesas e no interior via-se dom Gustavo Barceló
abraçando um rapaz que mal se agüentava em pé. Não percebi que era o filho de
Sempere até que Isabella apertou minha mão e levou-me para dentro. Quando me viu
entrar, Barceló levantou os olhos e lançou um sorriso derrotado. O filho do livreiro chorava
em seus braços e não tive coragem de me aproximar para cumprimentá-lo. Mas Isabella foi
até lá e pousou a mão em suas costas. Sempere filho virou e pude ver seu rosto desfeito.
Isabella levou-o até uma cadeira e fez com que se sentasse. O filho do livreiro desmoronou
em cima da cadeira como um boneco quebrado. Isabella ajoelhou a seu lado e abraçou-o.
Nunca tinha me sentido tão orgulhoso de ninguém quanto de Isabella naquele momento: já
não parecia uma mocinha apenas; era uma mulher, mais forte e mais sábia que qualquer
um dos que estavam ali.
Barceló aproximou-se de mim e estendeu a mão, que tremia. Eu a estreitei.
— Faz umas duas horas — explicou com voz rouca. — Ficou um instante sozinho na
livraria e, no que o filho voltou... Dizem que estava discutindo com alguém... Não sei. O
médico diz que foi o coração.
Engoli em seco.
— Onde está?
Barceló indicou com a cabeça a porta da salinha de trás. Fiz que sim e fui naquela
direção. Antes de entrar respirei fundo e apertei os punhos. Atravessei a soleira da porta e
o vi. Estava estendido na mesa, com as mãos cruzadas sobre o ventre. Tinha a pele
branca como papel, e os traços de seu rosto pareciam apagados, como se fossem de
papelão. Ainda estava com os olhos abertos. Senti que o ar me faltava e alguma coisa me
golpeava o estômago com uma força enorme. Busquei apoio na mesa e respirei
profundamente. Inclinei o corpo sobre ele e fechei suas pálpebras. Acariciei sua face, que