O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 330
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Indiquei Sempere filho.
— Como está ele?
Isabella olhou-me nos olhos.
— E você?
— Estou bem — menti. — Quem vai ficar com ele essa noite?
— Eu — disse sem hesitar nem um segundo.
Aprovei e beijei seu rosto antes de voltar para a salinha dos fundos. Lá encontrei
Barceló sentado diante do velho amigo e, enquanto os empregados da funerária tomavam
medidas e perguntavam sobre roupas e sapatos, serviu duas doses de brandy e me
passou uma. Sentei a seu lado.
— À saúde do amigo Sempere, que nos ensinou a ler, quando não a viver — disse.
Brindamos e bebemos em silêncio. Ficamos ali até os empregados da funerária
voltarem com o caixão e as roupas com as quais Sempere seria enterrado.
— Se os senhores concordarem, nos encarregamos disso — sugeriu o que parecia
mais despachado.
Concordei. Antes de passar para a frente da livraria, procurei pelo velho exemplar de
Grandes Esperanças que nunca tinha pego de volta e coloquei nas mãos do Sr. Sempere.
— Para a viagem — disse.
Quinze minutos depois, os empregados da funerária retiraram o ataúde e colocaram
sobre uma grande mesa disposta no centro da livraria. Uma multidão tinha se reunido na
Rua e esperava em profundo silêncio. Fui até a porta e abri. Um a um, os amigos de
Sempere e Filhos foram desfilando no interior da loja para ver o livreiro. Mais de um não
conseguiu conter as lágrimas e, diante do espetáculo, Isabella pegou o filho do livreiro pela
mão e levou-o para o apartamento em cima da livraria onde tinha vivido a vida inteira com
o pai. Barceló e eu ficamos ali, acompanhando o velho Sempere, enquanto as pessoas
chegavam para se despedir. Alguns, os mais chegados, ficavam. O velório durou a noite
inteira. Barceló ficou até as cinco da manhã e eu fiquei até que Isabella desceu do
apartamento, logo depois do amanhecer, e ordenou que fosse para casa, nem que fosse
para tomar um banho e trocar de roupa.
Olhei o pobre Sempere e sorri. Não podia acreditar que nunca mais iria passar por
aquelas portas e encontrá-lo atrás do balcão. Lembrei da primeira vez em que tinha visto a
livraria, quando era apenas um menino, e o livreiro me pareceu muito alto e forte.
Indestrutível. O homem mais sábio do mundo.
— Vá para casa, por favor — sussurrou Isabella.