O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 325

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Fechei os olhos e tratei de pensar no que ia levar comigo. Tinha vivido metade da minha vida cercado por aqueles objetos e agora, no momento de dizer adeus, era incapaz de fazer uma lista breve dos que considerava imprescindíveis. Pouco a pouco, sem que eu percebesse, estendido sob a luz tépida do sol e daquelas suaves esperanças, fui adormecendo placidamente.
Quando despertei e olhei para o relógio da biblioteca era meio-dia e meia. Faltava apenas meia hora para a partida do trem. Levantei de um salto e corri até o quarto.— Cristina? Dessa vez percorri a casa inteira, aposento por aposento, até chegar ao escritório. Não havia ninguém, mas tive a impressão de perceber um cheiro estranho no ar. Fósforo. A luz que penetrava pelas janelas exibia uma rede tênue de filamentos de fumaça azul suspensos no ar. Penetrei no escritório e vi um par de palitos de fósforo queimados no chão. Senti uma pontada de inquietude e ajoelhei diante do baú. Abri e suspirei, aliviado. A pasta com o manuscrito continuava lá. Foi quando estava prestes a fechar o baú que percebi. O laço de fita vermelho que fechava a pasta estava desfeito. Peguei a pasta e abri. Revisei as páginas, mas não senti falta de nada. Fechei a pasta novamente, dessa vez com um nó duplo, e devolvi a seu lugar. Fechei o baú e desci para o primeiro andar de novo. Sentei numa cadeira da galeria, de frente para o longo corredor que conduzia à porta de entrada, disposto a esperar. Os minutos desfilaram com infinita crueldade.
Lentamente, a consciência do que tinha acontecido foi desmoronando a meu redor, e aquele desejo de acreditar e confiar foi se transformando em fel e amargura. Logo ouvi os sinos da Santa Maria soarem as duas horas. O trem para Paris já tinha deixado a estação e Cristina não tinha regressado. Compreendi então que tinha ido embora, que aquelas breves horas que compartilhamos tinham sido uma miragem. Olhei através das vidraças para o dia deslumbrante que já não tinha cor de boa sorte e imaginei Cristina de volta à Villa Helius, buscando abrigo nos braços de Pedro Vidal. Senti que o rancor ia envenenando meu sangue vagarosamente e ri de mim e minhas absurdas esperanças. Fiquei ali, incapaz de um passo sequer, contemplando a cidade escurecer sob o crepúsculo e as sombras alongando-se sobre o chão do escritório. Levantei e cheguei à vidraça. Escancarei os dois lados da janela ao mesmo tempo e debrucei. Uma queda vertical de metros suficientes se abria diante de mim. Suficientes para pulverizar meus ossos, para transformá-los em punhais que atravessariam meu corpo, deixando que se apagasse numa poça de sangue no meio do pátio. Conjecturei se a dor seria tão atroz