O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 324
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Sorri e neguei, oportunidade que ele aproveitou para fechar a janelinha na minha cara.
Virei e atravessei o recinto imaculado e reluzente por cortesia daquele funcionário, que me
cumprimentou de longe, desejando bon voyage.
A agência central do Banco Hispano Colonial na Rua Fontanella lembrava um templo.
Um grande pórtico dava passagem para uma nave com uma fileira de estátuas de cada
lado, que se estendia até outra fileira de janelas dispostas como um altar. De ambos os
lados, à semelhança de capelas e confessionários, mesas de carvalho e poltronões dignos
de um marechal, tudo servido por um pequeno exército de funcionários e empregados
variados, vestidos com esmero e armados de sorrisos cordiais. Retirei 4 mil francos em
dinheiro e recebi as instruções sobre a forma de retirar fundos na agência que o banco
tinha na esquina da rue de Rennes com o boulevard Raspail, em Paris, perto do hotel que
Cristina tinha mencionado. Com aquela pequena fortuna no bolso, despedi-me
desobedecendo os conselhos do gerente sobre a imprudência de circular com tal
quantidade de dinheiro pelas Ruas da cidade.
O sol se levantava sobre o céu azul com a cor da boa fortuna e uma brisa limpa trazia
o cheiro do mar. Meus passos eram leves, como se tivesse me livrado de uma carga
tremenda, e comecei a pensar que a cidade tinha resolvido me deixar partir sem rancor. No
passeio do Born parei para comprar flores para Cristina, rosas brancas presas num buquê
com um laço vermelho. Subi as escadas da casa da torre de dois em dois, com um sorriso
estampado nos lábios e a certeza de que aquele seria o primeiro dia de uma vida que
acreditava perdida para sempre. Estava pronto para abrir quando, ao introduzir a chave na
fechadura, a porta cedeu. Estava aberta.
Empurrei-a para dentro e penetrei no vestíbulo. A casa estava em silêncio.
— Cristina?
Deixei as flores sobre a prateleira do saguão e fui até o quarto. Cristina não estava lá.
Percorri o corredor até a galeria do fundo. Não havia sinal de sua presença. Aproximei-me
da escada do escritório e chamei em voz alta.
— Cristina?
O eco devolveu minha voz. Dei de ombros e consultei o relógio que havia numa das
vitrines da biblioteca da galeria. Eram quase nove da manhã. Supus que Cristina tinha
saído para pegar alguma coisa e que, mal acostumada por sua existência em Pedralbes,
na qual tratar com portas e fechaduras eram questões resolvidas pelos criados, tinha
deixado a porta aberta ao sair. Enquanto esperava, resolvi deitar no sofá da galeria. O sol
entrava pela vidraça, um sol limpo e brilhante de inverno, e convidava a deixar-se acariciar.