O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 321
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Deitamos no sofá da galeria, abrigados sob um par de cobertores, contemplando as
brasas do fogo. Dormi acariciando o cabelo de Cristina e pensando que aquela seria a
última noite que passaria naquela casa, a prisão em que tinha enterrado minha juventude.
Sonhei que corria pelas Ruas de uma Barcelona infestada de relógios cujos ponteiros
giravam no sentido inverso. Becos e avenidas retorciam-se à minha passagem como
túneis com vontade própria, conformando um labirinto vivo que frustrava todos os meus
esforços para seguir adiante. Finalmente, sob um sol do meio-dia que ardia no céu como
numa esfera de metal quente, conseguia chegar à Estação da França, dirigindo-me a toda
pressa para a plataforma onde o trem começava a deslizar. Corria atrás dele, mas o trem
ganhava velocidade e, apesar dos meus esforços, só conseguia roçá-lo com a ponta dos
dedos. Continuava a correr até perder o fôlego e, ao chegar ao final da plataforma, caía no
vazio. Quando levantava os olhos, já era tarde. O trem se afastava na distância, o rosto de
Cristina fitando-me da última janela.
Abri os olhos e vi imediatamente que Cristina não estava lá. O fogo tinha se reduzido a
um punhado de cinzas que quase não faiscavam mais. Levantei e olhei através da janela.
Amanhecia. Grudei o rosto no vidro e percebi uma claridade bruxuleante na janela do
escritório. Fui até a escada que subia para a torre. Um clarão cor de cobre derramava-se
sobre os degraus. Subi lentamente. Quando cheguei ao escritório, parei no umbral. Cristina
estava de costas, sentada no chão. O baú junto à parede estava aberto. Cristina segurava
a pasta que continha o manuscrito do patrão nas mãos e estava desfazendo o laço que a
fechava. Ao ouvir meus passos, parou.
— O que está fazendo aqui? — perguntei, tentando ocultar o alarme em minha voz.
Cristina virou para mim e sorriu.
— Bisbilhotando.
Seguiu a linha do meu olhar até a pasta que tinha nas mãos e esboçou uma careta
maliciosa.
— O que tem aqui dentro?
— Nada. Notas. Observações. Nada que interesse...
— Mentiroso. Aposto que isso é o livro em que estava trabalhando — disse,
começando a desfazer o laço. — Estou morrendo de vontade de ler...
— Preferia que não o fizesse — disse, procurando o tom mais relaxado que fosse
capaz de fazer.
Cristina franziu a testa. Aproveitei o momento para ajoelhar-me diante dela e,
delicadamente, arrebatar-lhe a pasta.