PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Porque foi você quem escreveu. Pedro sempre diz que a única maneira de conhecer realmente um escritor é através do rastro de tinta que ele vai deixando: a pessoa que a gente pensa que vê nada mais é que um personagem oco, e a verdade se esconde sempre na ficção.— Deve ter lido isso em algum postal.— Na verdade, tirou de um livro seu. Sei disso porque também o li.— O plágio não tira o pensamento da categoria das bobagens.— Pois eu acho que faz sentido.— Então deve ser verdade.— Posso ler então?— Não. Jantamos o que tinha sobrado do pão e do queijo da manhã, sentados um em frente ao outro na mesa da cozinha, olhando-nos ocasionalmente. Cristina mastigava sem apetite, examinando cada bocado de pão à luz do candeeiro antes de levar à boca.
— Tem um trem que sai da Estação da França para Paris amanhã ao meio-dia— disse.— É cedo demais?
Não conseguia tirar da cabeça a imagem de Andreas Corelli subindo as escadas e batendo à minha porta a qualquer momento.— Acho que não.— Conheço um hotelzinho na frente dos jardins de Luxemburgo que aluga quartos por mês. É um pouco caro, mas...— acrescentou. Preferi não perguntar como tinha conhecido o tal hotelzinho.— O preço não importa, mas não falo francês— argumentei.— Mas eu falo. Abaixei os olhos.— Olhe nos meus olhos, David. Levantei a vista a contragosto.— Se preferir que eu vá embora... Neguei repetidamente. Agarrou minha mão e levou aos lábios.— Vai dar tudo certo. Você vai ver— disse.— Tenho certeza. Será a primeira coisa em minha vida que vai dar certo. Olhei para ela, uma mulher alquebrada na penumbra com lágrimas nos olhos, e não desejei nada no mundo além de poder lhe devolver o que nunca tinha tido.