O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Página 319

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Evitei seu olhar. — Contou que estava trabalhando num livro novo, uma encomenda de um editor estrangeiro. Ela o chama de patrão. Diz que lhe paga uma fortuna, mas que você se sente culpado por ter aceito o dinheiro. Diz que tem medo desse homem, o patrão, e que tem alguma coisa estranha nessa história. Suspirei irritado. — Tem alguma coisa que Isabella não tenha lhe contado? — O resto vai ficar entre nós duas — replicou ela, piscando o olho. — Estava mentindo, por acaso? — Não, mentindo não, especulando. — E o tal livro é sobre o quê? — É uma história para crianças. — Isabella já tinha me avisado que diria isso. — Se Isabella já lhe deu todas as respostas, por que fica perguntando? Cristina olhou para mim com severidade. — Para sua tranqüilidade, e a de Isabella, decidi abandonar o livro. C'est fini — garanti. — E quando foi isso? — Essa manhã, enquanto você dormia. Cristina franziu a testa, descrente. — E esse homem, o patrão, já sabe disso? — Ainda não falei com ele. Mas suponho que imagina. E se não imagina, logo ficará sabendo. — Terá que devolver o dinheiro, então? — Não acredito que o dinheiro tenha a mínima importância para ele. Cristina mergulhou num longo silêncio. — Posso lê-lo? — perguntou enfim. — Não. — Por que não? — É um rascunho sem pé nem cabeça. Trata-se de um amontoado de idéias e notas, fragmentos soltos. Nada que seja legível. Ficaria entediada. — Gostaria de ler assim mesmo. — Por quê?