O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 318
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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No meio da tarde o sol despontou sob o manto de nuvens que a tempestade tinha
abandonado atrás de si. As Ruas reluzentes de chuva se transformaram em espelhos
sobre os quais os passantes caminhavam e o céu cor de âmbar se refletia. Lembro que
andamos até o começo da Rambla, onde a estátua de Colombo se erguia no meio da
névoa. Caminhávamos em silêncio, contemplando as fachadas e a multidão como se
fossem uma miragem, como se a cidade já estivesse deserta e esquecida. Barcelona
nunca me pareceu tão bonita e tão triste quanto naquela tarde. Quando começou a
anoitecer, fomos até a livraria Sempere e Filhos. Escondemo-nos num portão do outro lado
da Rua, onde ninguém podia nos ver. A vitrine da velha livraria projetava um sopro de luz
sobre os paralelepípedos úmidos e brilhantes. No interior, vimos Isabella montada numa
escada organizando os livros na última estante, enquanto o filho de Sempere fingia que
revisava um livro de contabilidade atrás do balcão e olhava seus tornozelos com o rabo do
olho. Sentado num canto, velho e cansado, o Sr. Sempere observava os dois com um
sorriso triste.
— Esse é o lugar onde encontrei quase todas as coisas boas de minha vida — disse
sem pensar. — Não quero lhe dizer adeus.
Quando voltamos para a casa da torre já tinha escurecido. Ao entrar, fomos recebidos
pelo calor do fogo que tinha deixado aceso antes de sair. Cristina adiantou-se pelo
corredor e, sem dizer uma palavra, foi se despindo e deixando um rastro de roupa pelo
chão. Encontrei-a deitada na cama, esperando. Deitei a seu lado e deixei que guiasse
minhas mãos. Enquanto a acariciava, sentia seus músculos tencionando-se sob a pele. Em
seus olhos não havia ternura, mas um desejo de calor e de urgência. Abandonei-me em
seu corpo, penetrando-a com raiva enquanto sentia suas unhas em minha pele. Ouvi
quando gemeu de dor e de vida, como se o ar lhe faltasse. Finalmente, caímos exaustos e
cobertos de suor, um ao lado do outro. Cristina apoiou a cabeça em meu ombro e procurou
meus olhos.
— Sua amiga disse que você tinha se metido numa enrascada.
— Isabella?
— Estava muito preocupada com você.
— Isabella tem certa tendência a pensar que é minha mãe.
— Não, acho que não é nada disso.