PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— E você, não? Hesitei um instante.— E Pedro?— perguntei, quase engasgando com as palavras. Deixou cair o cobertor que cobria seus ombros e olhou-me desafiadoramente.— Por acaso precisou da permissão dele para dormir comigo? Mordi a língua. Cristina olhava para mim com lágrimas nos olhos.— Perdoe— murmurou.— Não tinha direito de dizer isso. Peguei o cobertor no chão e tentei cobri-la, mas ela saiu de lado e rejeitou meu gesto.— Pedro me deixou— disse com voz alquebrada.— Foi ontem para o Ritz esperar que eu partisse. Disse que sabia muito bem que não o amo, que me casei com ele por gratidão e por pena. Disse que não deseja minha compaixão, que cada dia que passo a seu lado fingindo amá-lo só lhe faz mal. Disse que, fizesse o que fizesse, ele sempre me amaria e que por isso não queria me ver nunca mais. Suas mãos tremiam.— Amou-me com toda a sua alma, e eu só consegui torná-lo mais infeliz— murmurou. Fechou os olhos e seu rosto se contorceu numa máscara de dor. Um instante depois, deixou escapar um gemido profundo e começou a bater no próprio rosto e corpo com os punhos. Joguei-me sobre ela, rodeando-a com meus braços, imobilizando-a. Cristina pelejava e gritava. Fiz pressão contra o solo, agarrando suas mãos. Rendeu-se lentamente, exausta, o rosto coberto de lágrimas e saliva, os olhos vermelhos. Ficamos ali parados quase meia hora, até que senti que seu corpo relaxava e ela mergulhava num longo silêncio. Envolvi-a no cobertor e abracei-a por trás, escondendo minhas próprias lágrimas.
— Iremos para longe— murmurei em seu ouvido sem saber se podia me ouvir ou me entender.— Iremos para longe onde ninguém saiba quem somos e isso não tenha importância. Eu te prometo.
Cristina virou a cabeça e olhou para mim. Tinha a expressão devastada, como se tivessem quebrado sua alma a marteladas. Abracei-a com força e beijei sua testa. A chuva continuava batendo atrás dos vidros, e presos naquela luz cinza e pálida da aurora morta, pensei que, pela primeira vez, nos fundíamos.
Abandonei o trabalho para o patrão naquela mesma manhã. Enquanto Cristina dormia, subi para o escritório e guardei a pasta que continha todas as páginas, notas e observações do projeto num velho baú que ficava junto à parede. Meu primeiro impulso foi queimar tudo, mas não tive coragem. Sempre senti, a vida inteira, que as páginas que ia