O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 315
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
deixando à minha passagem eram parte de mim. As pessoas normais trazem filhos ao
mundo; os romancistas trazem os livros. Estamos condenados a deixar a vida neles,
embora quase nunca nos agradeçam por isso. Estamos condenados a morrer em suas
páginas e, às vezes, a permitir que elas acabem nos tirando a vida. Entre todas as
estranhas criaturas de papel e tinta que trouxe para esse mundo miserável, aquela, minha
oferenda mercenária às promessas do patrão, era sem dúvida a mais grotesca. Não havia
nada naquelas páginas que merecesse mais que o fogo e, no entanto, não deixava de ser
sangue do meu sangue e não tinha coragem de destruí-las. Abandonei-as no fundo
daquele baú e saí do escritório acabrunhado, quase envergonhado de minha covardia e da
nebulosa sensação de paternidade que aquele manuscrito feito de trevas me inspirava.
Provavelmente, o patrão saberia apreciar a ironia daquela situação. A mim inspirava nojo,
simplesmente.
Cristina dormiu até o meio da tarde. Aproveitei para ir até uma leiteria perto do
mercado para comprar leite, pão e queijo. A chuva tinha parado, enfim, mas as Ruas
estavam encharcadas e a umidade era palpável no ar, como se fosse uma poeira fria que
penetrava nas roupas e nos ossos. Enquanto esperava minha vez na leiteria, tive a
impressão de que alguém me observava. Quando saí à Rua de novo e atravessei o
passeio do Born, olhei para trás e vi que um menino que não tinha mais de 5 anos estava
me seguindo. Parei e olhei para ele. O menino também parou e sustentou meu olhar.
— Não tenha medo — disse eu. — Venha cá.
O menino se aproximou alguns passos e parou a cerca de 2 metros de mim. Tinha a
pele pálida, quase azulada, como se nunca tivesse visto a luz do sol. Vestia-se de negro e
usava sapatos de verniz novos e reluzentes. Tinha a íris escura e pupilas tão grandes que
mal dava para ver o branco dos olhos.
— Como se chama? — perguntei.
O menino sorriu e me fez um sinal com o dedo. Quis dar um passo em sua direção,
mas ele saiu correndo e fiquei olhando, enquanto se perdia no passeio do Born.
Quando cheguei no portão de casa, encontrei um envelope encaixado na porta. O selo
de lacre vermelho ainda estava quente. Olhei para um lado e outro da Rua, mas não vi
ninguém. Entrei e tranquei o portão às minhas costas com uma volta dupla. Parei ao pé da
escada e abri o envelope.