O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 313
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Pouco depois da aurora, acordei e descobri que estava sozinho na cama. Levantei de
um salto, temendo que Cristina tivesse ido embora de novo no meio da noite. Então vi que
suas roupas e seus sapatos continuavam na cadeira e respirei fundo. Encontrei-a na
galeria, enrolada num cobertor e sentada no chão de frente para a lareira, onde a lenha em
brasa desprendia um hálito de fogo azul. Sentei a seu lado e beijei seu pescoço.
— Não consegui dormir — disse, o olhar fixo no fogo.
— Devia ter me acordado.
— Não tive coragem. Você estava com jeito de quem conseguia dormir pela primeira
vez em meses. Preferi explorar sua casa.
— E?
— Essa casa está enfeitiçada de tristeza — disse. — Devia pôr fogo nela.
— E onde iríamos viver?
— No plural?
— Por que não?
— Pensei que não escrevia mais contos de fadas.
— É como andar de bicicleta. Quando se aprende...
Cristina me olhou longamente.
— O que há nesse quarto no fim do corredor?
— Nada. Trastes velhos.
— Está fechado à chave.
— Quer ir ver?
Negou.
— É só uma casa, Cristina. Um montão de pedras e recordações. Nada mais.
Cristina fez que sim, não muito convencida.
— Por que não vamos embora? — perguntou.
— Para onde?
— Para longe.
Não pude evitar um sorriso, mas ela não correspondeu.
— Até onde? — perguntei.
— Até onde ninguém saiba quem somos nós e nem se importe com isso.
— É isso que deseja? — perguntei.