O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 312

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 38 Despi Cristina à luz de uma vela. Tirei seus sapatos cheios de água, o vestido encharcado e as meias desfiadas. Sequei seu corpo e seu cabelo com uma toalha limpa. Ainda tremia de frio quando deitei-a na cama e me estendi junto dela, abraçando-a para lhe passar calor. Ficamos assim por um longo período, em silêncio, ouvindo a chuva. Lentamente, senti que seu corpo ia esquentando sob minhas mãos e que começava a respirar profundamente. Pensei que tinha adormecido, quando a ouvi falar na penumbra. — Sua amiga veio me ver. — Isabella. — Contou que tinha escondido minhas cartas de você. E que não o fez de má-fé. Achava que estava fazendo aquilo para o seu bem e não deixa de ter razão. Inclinei-me sobre ela e procurei seus olhos. Acariciei seus lábios e, pela primeira vez, ela sorriu levemente. — Pensei que tinha se esquecido de mim — disse. — Bem que tentei. Tinha o rosto marcado pelo cansaço. Os meses de ausência tinham desenhado linhas sobre sua pele, e seu olhar tinha um ar de derrota e vazio. — Já não somos mais jovens — disse, lendo meus pensamentos. — E quando é que pudemos ser jovens, eu e você? Puxei o cobertor de lado e contemplei seu corpo nu estendido sobre o lençol branco. Acariciei sua garganta e seu peito, mal roçando sua pele com a ponta dos dedos. Desenhei círculos em seu ventre e tracei o contorno dos ossos que se insinuavam sob os quadris. Deixei que meus dedos brincassem nos caracóis quase transparentes entre suas coxas. Cristina me observava em silêncio, com seu sorriso triste e seus olhos entreabertos. — O que vamos fazer? — perguntou. Voltei a me inclinar sobre ela e beijei seus lábios. Abraçou-me e ficamos ali estendidos, enquanto a luz da vela se extinguia lentamente. — Pensaremos em alguma coisa — murmurou.