O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 312
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Despi Cristina à luz de uma vela. Tirei seus sapatos cheios de água, o vestido
encharcado e as meias desfiadas. Sequei seu corpo e seu cabelo com uma toalha limpa.
Ainda tremia de frio quando deitei-a na cama e me estendi junto dela, abraçando-a para
lhe passar calor. Ficamos assim por um longo período, em silêncio, ouvindo a chuva.
Lentamente, senti que seu corpo ia esquentando sob minhas mãos e que começava a
respirar profundamente. Pensei que tinha adormecido, quando a ouvi falar na penumbra.
— Sua amiga veio me ver.
— Isabella.
— Contou que tinha escondido minhas cartas de você. E que não o fez de má-fé.
Achava que estava fazendo aquilo para o seu bem e não deixa de ter razão.
Inclinei-me sobre ela e procurei seus olhos. Acariciei seus lábios e, pela primeira vez,
ela sorriu levemente.
— Pensei que tinha se esquecido de mim — disse.
— Bem que tentei.
Tinha o rosto marcado pelo cansaço. Os meses de ausência tinham desenhado linhas
sobre sua pele, e seu olhar tinha um ar de derrota e vazio.
— Já não somos mais jovens — disse, lendo meus pensamentos.
— E quando é que pudemos ser jovens, eu e você?
Puxei o cobertor de lado e contemplei seu corpo nu estendido sobre o lençol branco.
Acariciei sua garganta e seu peito, mal roçando sua pele com a ponta dos dedos.
Desenhei círculos em seu ventre e tracei o contorno dos ossos que se insinuavam sob os
quadris. Deixei que meus dedos brincassem nos caracóis quase transparentes entre suas
coxas.
Cristina me observava em silêncio, com seu sorriso triste e seus olhos entreabertos.
— O que vamos fazer? — perguntou.
Voltei a me inclinar sobre ela e beijei seus lábios. Abraçou-me e ficamos ali
estendidos, enquanto a luz da vela se extinguia lentamente.
— Pensaremos em alguma coisa — murmurou.