PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Podia ouvir o som do relógio que repousava na prateleira acima da lareira. Não precisava consultá-lo para saber que faltava apenas meia hora para o meu encontro com o patrão no salão de bilhar do Círculo Eqüestre.
Fechei os olhos e imaginei-o percorrendo as Ruas da cidade, desertas e encharcadas de água. Imaginei-o sentado no banco de trás de seu carro, seus olhos dourados brilhando na escuridão e o anjo de prata sobre o capô do Rolls-Royce abrindo caminho na tormenta. Imaginei-o imóvel como uma estátua, sem respiração nem sorriso, sem expressão alguma. De repente, ouvi o barulho da lenha ardendo e da chuva atrás dos vidros e adormeci com a arma nas mãos e a certeza de que não iria àquele encontro.
Pouco depois da meia-noite abri os olhos. A lareira estava quase apagada e a galeria jazia mergulhada na penumbra ondulante projetada pelas chamas azuis que consumiam as últimas brasas. Continuava chovendo intensamente. O revólver ainda estava em minhas mãos, tépido. Fiquei ali estendido por alguns segundos, quase sem piscar. Adivinhei que havia alguém na porta antes que batesse.
Afastei o cobertor e levantei. Ouvi de novo o barulho. Batidas na porta de casa. Levantei com a arma na mão e fui para o corredor. Mais uma vez, a batida. Dei alguns passos em direção à porta e parei. Imaginei-o sorrindo no patamar, o anjo de sua lapela brilhando no escuro. Tencionei o gatilho da arma. De novo, o som de uma mão batendo na porta. Quis acender a luz, mas não havia eletricidade. Continuei avançando até chegar à porta. Ia abrir o visor, mas não me atrevi. Fiquei ali imóvel, quase sem respirar, segurando a arma no alto, apontando para a porta.— Vá embora— gritei, sem força na voz. Foi então que ouvi aquele pranto do outro lado e abaixei a arma. Abri a porta para a escuridão e encontrei-a ali. Tinha a roupa encharcada e estava tremendo. Sua pele estava gelada. Quando me viu, esteve a ponto de desmoronar em meus braços. Segurei-a e, sem encontrar palavras, abracei-a com força. Sorriu debilmente e quando passei a mão em seu rosto, beijou-a fechando os olhos.— Perdoe-me— murmurou Cristina. Abriu os olhos e pousou em mim aquele olhar ferido e partido que me perseguiria até o inferno. Sorri para ela.— Bem vinda à casa.