O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Página 310

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 37 Voltei para casa no mesmo bonde, percorrendo a cidade que escurecia a cada minuto sob um vento gelado que levantava as folhas secas das Ruas. Ao descer na praça Palácio, ouvi dois marinheiros que vinham das docas falarem de uma tempestade que se aproximava por mar e que atingiria a cidade antes do anoitecer. Levantei os olhos e vi que um manto de nuvens vermelhas começava a cobrir o céu, espalhando-se sobre o mar como sangue derramado. Nas Ruas que rodeavam o Born, as pessoas apressavam-se a prender portas e janelas, os comerciantes fechavam suas lojas antes da hora, e as crianças saíam para a Rua para brincar contra o vento, erguendo os braços em cruz e rindo para o estrondo de trovões distantes. Os lampiões piscavam e o brilho dos relâmpagos velava as fachadas com sua luz branca. Corri até o portão da casa da torre e subi as escadas apressadamente. Dava para ouvir o rumor da tempestade através das paredes, aproximando-se. Fazia tanto frio dentro de casa, que dava para ver o contorno do meu hálito no corredor quando entrei. Fui direto para o quarto onde havia uma velha estufa a carvão que só tinha usado umas quatro ou cinco vezes desde que morava ali. Acendi a estufa com um rolo de jornais velhos e secos. Acendi também a lareira da galeria e sentei sozinho diante das chamas. Minhas mãos tremiam, e eu não sabia se era de frio ou de medo. Esperei que o calor entrasse contemplando a retícula de luz branca que os raios deixavam no céu. * * * A chuva não chegou antes do anoitecer e quando começou a cair, desmoronou em cortinas de gotas furiosas que em apenas alguns minutos cegaram a noite e afogaram telhados e becos sob um manto negro que batia com força em paredes e vidros. Pouco a pouco, entre a estufa de carvão e a lareira, a casa foi esquentando, mas eu continuava com frio. Levantei e fui até o quarto em busca de cobertores para me cobrir. Abri o armário e comecei a remexer nos dois grandes gavetões da parte de baixo. O estojo continuava ali, escondido no fundo. Peguei-o e coloquei sobre a cama. Abri e contemplei o velho revólver de meu pai, tudo o que me restava dele. Empunhei- o acariciando o gatilho com o dedo. Abri o tambor e coloquei seis balas da caixa de munição que havia no fundo duplo do estojo. Deixei a caixa sobre a mesinha de cabeceira e levei o revólver e um cobertor para a galeria. Uma vez lá, caí no sofá enrolado no cobertor, com o revólver no peito, e abandonei o olhar na tempestade atrás das janelas.