O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | страница 309

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA escura que me observava do fundo do corredor segurando um objeto reluzente na mão. Um punhal. O ferrolho cedeu sob minhas mãos e abri a porta com um empurrão. O impulso me fez cair de frente nas lajes de mármore que cercavam a piscina. Meu rosto ficou a apenas um palmo da superfície e senti o fedor das águas estagnadas. Por um instante, examinei a escuridão que entrevia no fundo da piscina. Um claro se abriu entre as nuvens e a luz do sol deslizou através das águas, varrendo o fundo de ladrilhos meio soltos. A visão durou apenas um instante. A cadeira de rodas estava caída para a frente, encalhada no fundo. A luz seguiu seu percurso até a parte mais funda da piscina e foi lá que a encontrei. Apoiado contra a parede jazia algo que parecia um corpo envolto num vestido branco esfarrapado. Pensei que fosse uma boneca, os lábios rubros carcomidos pela água e os olhos brilhantes como safiras. Seu cabelo ruivo balançava suavemente nas águas putrefatas, e sua pele era azul. Era a viúva Marlasca. Um segundo depois, o clarão no céu se apagou e as águas voltaram a ser um espelho escuro no qual só pude ver meu próprio rosto e uma silhueta materializando-se às minhas costas no umbral da galeria, com o punhal na mão. Levantei rapidamente e saí correndo para o jardim, atravessando o arvoredo, arranhando o rosto nos arbustos até ganhar o portão metálico e sair para o beco. Continuei correndo e não parei até chegar à estrada de Vallvidrera. Uma vez lá, sem fôlego, virei e vi que a Casa Marlasca se escondia de novo no fundo do beco, invisível para o mundo.