O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 308

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
mãe ou com outras crianças. Não havia sinal de Diego Marlasca em nenhuma das fotografias.
O barulho de uma porta no corredor sobressaltou-me de novo e saí do quarto, deixando os retratos do modo como os tinha encontrado. A entrada do quarto que ficava na ponta do corredor continuava a balançar. Fui até lá e parei um instante antes de entrar. Respirei fundo e abri a porta.
Tudo era branco. As paredes e o teto estavam pintados de branco imaculado. Cortinas de seda branca. Uma pequena cama coberta de panos brancos. Um tapete branco. Estantes e armários brancos. Depois da penumbra que reinava em toda a casa, aquele contraste ofuscou minha visão por alguns segundos. O aposento parecia tirado de uma visão de sonho, de uma fantasia de conto de fadas. Havia brinquedos e livros de história nas estantes. Um arlequim de porcelana de tamanho real estava sentado diante de um toucador, olhando-se no espelho. Um móbile de pássaros brancos pendia do teto. À primeira vista, parecia o quarto de um menino criado com muito mimo, Ismael Marlasca, mas tinha o ar opressivo de uma câmara mortuária.
Sentei na cama e suspirei. Foi então que percebi que alguma coisa estava fora de lugar naquele quarto. Um fedor adocicado flutuava no ar. Levantei e olhei ao redor. Sobre um gaveteiro havia um prato de porcelana com uma vela negra, a cera caída num cacho de lágrimas escuras. Virei. O cheiro parecia vir da cabeceira da cama. Abri a gaveta e encontrei um crucifixo quebrado em três partes. Senti que o cheiro estava mais perto. Dei algumas voltas pelo quarto, mas não consegui localizar a fonte daquele fedor. Foi então que a vi. Havia alguma coisa embaixo da cama. Ajoelhei e olhei sob o leito. Uma caixa de latão, dessas que as crianças usam para guardar seus tesouros de infância. O fedor agora estava muito mais claro e penetrante. Ignorei a náusea e abri a caixa. No interior havia uma pomba branca com o coração atravessado por uma agulha. Dei um passo atrás, tapando a boca e o nariz, e fui retrocedendo até o corredor. Os olhos do arlequim com seu sorriso de chacal me observavam pelo espelho. Corri de volta à escada e me joguei escada abaixo, em busca do corredor que levava para a sala de leitura e para a porta que tinha conseguido abrir no jardim. Em algum momento, pensei que estava perdido e que a casa, como uma criatura capaz de deslocar corredores e salões a seu bel-prazer, não queria me deixar escapar. Finalmente, avistei a galeria envidraçada e corri para a porta. Só então, enquanto lutava com o ferrolho, ouvi a risadinha maliciosa às minhas costas e vi que não estava sozinho na casa. Virei no mesmo instante e pude apreciar uma silhueta