O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 307
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
À medida que meus olhos se ajustavam à penumbra, comecei a adivinhar os
contornos da sala. Fui até as janelas e abri um pouco para ganhar mais alguma luz. Um
leque de feixes de luz atravessou as trevas e desenhou o perfil da sala.
— Alguém em casa? — chamei.
Ouvi o som de minha voz mergulhando nas entranhas da casa como uma moeda num
poço sem fundo. Encaminhei-me para um canto da sala, onde um arco de madeira lavrada
dava passagem para um corredor com paredes de veludo cobertas de quadros que mal
conseguia ver. No outro extremo, abria-se um salão circular com piso de mosaico e um
mural de vidro esmaltado no qual se distinguia a figura de um anjo branco com um braço
estendido e dedos de fogo. Uma grande escadaria de pedra subia numa espiral que
rodeava a sala. Parei ao pé da escada e chamei de novo.
— Bom dia? Sra. Marlasca?
A casa estava mergulhada num silêncio absoluto e um eco enfraquecido carregava
minhas palavras. Subi as escadas até o primeiro andar e parei no patamar de onde se
podia contemplar o salão e o mural. De lá, pude ver o rastro que meus passos tinham
deixado na fina camada de poeira que cobria o solo. Além de minhas pegadas, o único
sinal de passos que pude perceber foi uma espécie de esteira traçada sobre a poeira por
duas linhas contínuas separadas por três palmos e um rastro de pegadas entre elas.
Pegadas grandes. Observei aquelas marcas, desorientado, até que finalmente compreendi
o que estava acontecendo. A passagem de uma cadeira de rodas e as pegadas de quem a
empurrava.
Ouvi um ruído às minhas costas e virei. Uma porta entreaberta no extremo de um dos
corredores balançava levemente. Uma lufada de ar frio vinha de lá. Fui lentamente até a
porta. Enquanto o fazia, passei os olhos pelos quartos que ficavam de ambos os lados.
Eram dormitórios cujos móveis estavam cobertos por panos e lençóis. As janelas fechadas
e uma densa penumbra sugeriam que não eram usados havia muito tempo, à exceção de
um quarto bem maior do que os outros, um dormitório de casal. Entrei nesse quarto e
verifiquei que tinha um cheiro estranho, aquela mescla de perfume e enfermidade que
acompanha os anciãos. Adivinhei que aquele era o quarto da viúva Marlasca, mas não vi
nenhum sinal de sua presença.
A cama estava feita com cuidado. Diante do leito havia uma cômoda sobre a qual
repousavam vários retratos emoldurados. Em todos eles, sem exceção, via-se um menino
de cabelos claros e expressão risonha. Ismael Marlasca. Em algumas fotos aparecia com a