PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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Esperei um amanhecer que não chegava, sentado na poltrona do escritório até que a raiva tomou conta de mim e saí para a Rua disposto a desafiar o alerta do advogado Valera. Soprava aquele vento frio que precede a chegada do inverno. Ao atravessar o passeio do Born, tive a impressão de ouvir passos às minhas costas. Virei um instante, mas não vi ninguém exceto os empregados do mercado que descarregavam os caminhões e continuei meu caminho. Quando cheguei à praça Palacio, avistei as luzes do primeiro bonde do dia esperando no meio da neblina que se arrastava desde as águas do porto. Serpentes de luz azul faiscavam sobre os cabos. Subi no bonde e sentei na parte da frente. Uma dezena de passageiros foi gotejando pouco a pouco, todos sozinhos. Em poucos minutos, o bonde arrancou e começamos a viagem enquanto uma rede de capilares avermelhados se estendia no céu por entre as nuvens negras. Não era preciso ser poeta ou sábio para saber que aquele seria um dia ruim.
Quando chegamos a Sarrià, o dia tinha amanhecido com uma luz cinzenta e fraca que impedia que se apreciassem as cores. Subi pelas vielas solitárias do bairro em direção ao sopé da montanha. De repente, tive de novo a impressão de ouvir passos atrás de mim, mas cada vez que parava e olhava para trás não havia ninguém. Finalmente cheguei à entrada do beco que levava à Casa Marlasca e abri caminho por entre o manto de folhas que gemia aos meus pés. Atravessei o pátio lentamente e subi os degraus até a porta principal, examinando as janelas da fachada. Bati três vezes e dei alguns passos para trás. Esperei um minuto sem obter nenhuma resposta e bati de novo. Ouvi o eco das batidas se perdendo no interior da casa.— Alguém em casa?— chamei. O arvoredo que envolvia a construção absorvia o eco de minha voz. Rodeei a casa até o pavilhão que hospedava a piscina e aproximei-me da galeria envidraçada. As janelas estavam cobertas por postigos de madeira semicerrados que impediam a visão do interior. Uma das janelas junto à porta de vidro que fechava a galeria estava entreaberta. Dava para ver o trinco que segurava a porta através do vidro. Enfiei o braço pela janela entreaberta e soltei a tranca do ferrolho. A porta cedeu com um som metálico. Olhei às minhas costas mais uma vez, para assegurar-me de que não havia ninguém e entrei.