O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 301

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Essa conversa está começando a me aborrecer, Martín. — Imagine a mim, então. Grandes sentou novamente na minha frente e ofereceu um sorriso conciliador. — Não acha que tenho algo a ver com a morte desse homem, acha? — Não, Martín. Não acho. Mas acredito que você não está me dizendo a verdade e que, de alguma forma, a morte desse pobre infeliz está relacionada com sua visita. Como a de Barrido e Escobillas. — E o que o faz pensar isso? — Pode chamar de palpite. — Já lhe disse tudo o que sei. — Já avisei que não me faça de idiota, Martín. Marcos e Castelo estão aí fora à espera de uma oportunidade de conversar com você a sós. É isso que quer? — Não. — Então me ajude a tirá-lo dessa enrascada e mandá-lo para casa antes que seus lençóis acabem de esfriar. — O que quer ouvir? — A verdade, por exemplo. Empurrei a cadeira para trás e levantei, exasperado. O frio tinha se encravado em meus ossos e tinha a sensação de que minha cabeça ia explodir. Comecei a caminhar em círculos ao redor da mesa, cuspindo as palavras sobre o inspetor como se fossem pedras. — A verdade? Pois eu lhe direi a verdade. A verdade é que não sei qual é a verdade. Não sei o que lhe contar. Não sei por que fui ver Roures, nem Salvador. Não sei o que estou procurando nem o que está me acontecendo. Essa é a verdade. Grandes me observava, impávido. — Pare de dar voltas e sente. Está me deixando tonto. — Não tenho vontade. — Martín, o que acabou de dizer e nada é a mesma coisa. Só estou pedindo que me ajude para que possa ajudá-lo também. — Não poderia me ajudar nem que quisesse. — Quem poderia então? Voltei a cair na cadeira. — Eu não sei... — murmurei. Tive a impressão de ver um sinal de pena, mas talvez fosse apenas cansaço, nos olhos do inspetor.