O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 300
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Marlasca.
— Sim, Diego Marlasca. Como dizia, Salvador me contou que Roures e ele tiveram
negócios anos atrás. Formulei algumas perguntas que ele respondeu como pôde ou como
soube. Não sei muito mais que isso.
Grandes aprovou repetidamente.
— É essa a sua história?
— Não sei. Qual é a sua? Podemos comparar e no mínimo ficarei sabendo que merda
estou fazendo no meio da noite, congelando num porão que cheira à merda.
— Não levante a voz para mim, Martín.
— Desculpe, inspetor, mas penso que podia pelo menos se dignar a dizer o que estou
fazendo aqui.
— Vou lhe dizer o que está fazendo aqui. Cerca de três horas atrás, um vizinho do
edifício onde se localiza o estabelecimento do Sr. Roures voltava para casa bem tarde,
quando encontrou a porta da loja aberta e as luzes acesas. Estranhou, entrou e, como não
viu o dono e este não respondeu a seus chamados, foi até a sala dos fundos da loja onde
o encontrou de pés e mãos amarrados a uma cadeira com arame, e sobre uma poça de
sangue.
Grandes fez uma longa pausa que consagrou a tentar me perfurar com os olhos.
Supus que devia saber mais alguma coisa. Grandes sempre deixava uma jogada de efeito
para o final.
— Morto? — perguntei.
Grandes fez que sim.
— Bastante. Alguém tinha se divertido, arrancando seus olhos e cortando sua língua
com uma tesoura. O legista supõe que morreu afogado no próprio sangue cerca de meia
hora depois disso.
Senti que o ar me faltava. Grandes caminhava ao meu redor. Parou às minhas costas
e ouvi que acendia um cigarro.
— Como foi que aconteceu essa pancada? Dá para ver que é recente.
— Escorreguei na chuva e bati com a nuca.
— Não me faça de imbecil, Martín. Não lhe convém. Prefere que o deixe um instante
com Marcos e Castelo para ver se lhe ensinam boas maneiras?
— Certo. Alguém me bateu.
— Quem?
— Não sei.