O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | 页面 299

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Por quê?— Faça o que mandei. Um carro da Chefatura nos esperava no passeio do Born. Marcos e Castelo enfiaramme para dentro sem muita delicadeza e trataram de se colocar um de cada lado, deixandome no meio.
— Está confortável, cavalheiro?— perguntou Castelo, enfiando o cotovelo em minhas costelas.
O inspetor sentou na frente, ao lado do motorista. Nenhum deles abriu o bico nos cinco minutos que demoramos para percorrer a via Layetana, deserta e sepultada numa névoa ocre. Quando chegamos à Delegacia Central, Grandes desceu do carro e entrou sem esperar. Marcos e Castelo me seguraram cada um por um braço como se quisessem pulverizar meus ossos e me arrastaram por um labirinto de escadas, corredores e celas até uma sala sem janelas que fedia a suor e urina. No centro da sala havia uma mesa de madeira carcomida e duas cadeiras bambas. Uma lâmpada nua pendia do teto e havia um ralo de escoamento no centro do aposento, no ponto para o qual convergiam os dois leves declives que formavam a superfície do chão. Fazia um frio atroz. Antes que me desse conta, a porta se fechou atrás de mim com força. Ouvi passos que se afastavam. Dei 12 voltas naquela masmorra antes de resolver me abandonar numa das cadeiras que bamboleava. Na hora seguinte, além de minha respiração, do rangido da cadeira e do eco de uma goteira que não consegui localizar, não ouvi mais nenhum som.
Uma eternidade mais tarde, percebi o eco de passos que se aproximavam e em seguida a porta se abriu. Marcos apareceu, sorridente. Segurou a porta e deu passagem a Grandes, que entrou sem pousar os olhos em mim e sentou na cadeira do outro lado da mesa. Fez um sinal afirmativo a Marcos e ele fechou a porta, não sem antes me jogar um beijo silencioso no ar e piscar um olho. O inspetor levou uns bons trinta segundos para se dignar a me olhar no rosto.— Se pretendia me impressionar já conseguiu, inspetor. Grandes não fez caso de minha ironia e cravou os olhos em mim como se nunca tivesse me visto antes em toda a sua vida.— O que sabe sobre Damián Roures?— perguntou. Dei de ombros.— Não muito. Que é dono de uma loja de artigos de magia. Na verdade, não sabia nada até uns dias atrás, quando Ricardo Salvador me falou dele. Hoje, ou ontem, por que não sei mais que horas são, fui procurá-lo em busca de informação sobre o antigo morador da casa em que moro. Salvador indicou que Roures e o antigo proprietário...