PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
poderei conhecer. Outras, penso que ainda me odeia, que destrói as cartas que escrevo e preferia nunca ter me conhecido. Não o culpo. É curioso como é fácil contar, sozinha diante de um pedaço de papel, aquilo que não me atreveria a dizer-lhe frente a frente.
As coisas não são fáceis para mim. Pedro não poderia ser melhor e mais compreensivo comigo, tanto que às vezes a sua paciência e vontade de me fazer feliz chegam a me irritar, o que só faz com que me sinta ainda mais miserável. Pedro me mostrou que tenho o coração vazio, que não mereço que ninguém me ame. Passa quase o dia inteiro comigo. Não quer me deixar sozinha.
Sorrio todo o dia e partilho seu leito. Quando me pergunta se o amo, digo que sim, mas quando vejo a verdade refletida em seus olhos gostaria de estar morta. Nunca me cobrou por isso. Fala muito em você. Sente sua falta. Tanto que às vezes penso que a pessoa que ele mais ama neste mundo é você. Vejo que está envelhecendo sozinho com a pior das companhias, a minha. Não pretendo que perdoe a mim, mas se desejo alguma coisa nesse mundo é que você o perdoe. Não lhe negue sua amizade e sua companhia por minha causa.
Acabei ontem de ler um de seus livros. Pedro tem todos eles e gosto de lê-los pois é a única maneira de me sentir perto de você. Era uma história triste e estranha de dois bonecos quebrados e abandonados em um circo ambulante que, pelo espaço de uma noite, ganhavam vida, sabendo que morrerão ao amanhecer. Enquanto a lia tive a impressão de que estava falando de nós dois.
Há algumas semanas, sonhei que voltava a vê-lo, que nos esbarrávamos na Rua e você não se lembrava de mim. Sorria e perguntava como eu me chamava. Não sabia nada de mim. Não me odiava. Todas as noites, quando Pedro dorme a meu lado, fecho os olhos e imploro aos céus que me permita sonhar esse sonho de novo.
Amanhã, ou talvez depois, vou escrever de novo para dizer que o amo, embora isso não signifique mais nada para você.
CRISTINA
Deixei a carta cair no chão, incapaz de continuar a ler. Amanhã será outro dia, disse com meus botões. Dificilmente pior que aquele. Mas nem imaginava que as delícias daquela jornada estavam apenas começando. Devo ter conseguido dormir no máximo um par de horas quando despertei de repente, no meio da madrugada. Alguém estava batendo com força na porta da casa. Fiquei alguns segundos aturdido no escuro, procurando o fio