O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 296
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Faltavam apenas alguns minutos para a meia-noite quando finalmente cheguei à casa
da torre. Assim que abri a porta soube que Isabella tinha ido embora. O som dos meus
passos no corredor tinha outro eco. Não me dei ao trabalho de acender a luz. Entrei na
casa na penumbra e cheguei à porta daquele que tinha sido seu quarto. Isabella tinha
limpado e arrumado tudo. Os lençóis e cobertores estavam cuidadosamente dobrados
sobre uma cadeira, o colchão despido. Seu cheiro ainda flutuava no ar. Fui até a galeria e
sentei na escrivaninha que minha assistente costumava usar. Isabella tinha feito ponta nos
lápis, deixando-os arrumados dentro de um vaso. As folhas em branco estavam
perfeitamente empilhadas numa bandeja. O jogo de penas de caneta que tinha lhe dado de
presente repousava num extremo da mesa. A casa nunca me pareceu tão vazia.
No banheiro, tirei as roupas encharcadas e coloquei uma gaze com álcool na nuca. A
dor tinha diminuído até se transformar num latido surdo e numa sensação geral não muito
diferente de uma ressaca monumental. No espelho, os cortes que tinha no peito pareciam
linhas traçadas com caneta. Eram cortes limpos e superficiais, mas ardiam que era uma
beleza. Limpei com álcool e esperei que não inflamassem.
Enfiei-me na cama, cobrindo-me até o pescoço com dois ou três cobertores. As únicas
partes do corpo que não doíam eram as que o frio e a chuva tinham amortecido até privá-
las de qualquer sensação. Esperei até me esquentar, ouvindo aquele silêncio frio, um
silêncio de ausência e vazio que afogava a casa. Antes de ir embora, Isabella tinha
deixado o maço de envelopes com as cartas de Cristina na mesinha de cabeceira. Estiquei
a mão e peguei uma ao acaso, datada de duas semanas atrás.
Querido David,
Os dias passam e continuo a escrever cartas que você prefere não responder, se é
que chega a abrir. Comecei a pensar que, na verdade, escrevo essas linhas só para mim,
para matar a solidão e poder acreditar que, pelo menos por um instante, ainda tenho você
perto de mim. Todos os dias pergunto a mim mesma o que terá sido feito de você, e o que
estará fazendo.
Às vezes, penso que foi embora de Barcelona para nunca mais voltar e imagino você
em algum lugar estranho, rodeado de estranhos, começando uma vida nova que nunca