O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 293
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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O bonde parou às portas da torre de Bellesguard, onde a cidade morria ao pé da
colina. Encaminhei-me para as portas do cemitério de San Gervasio, seguindo a trilha de
luz amarelada que a iluminação do bonde perfurava na chuva. Os muros do campo-santo
se erguiam a cerca de 50 metros, numa fortaleza de mármore sobre a qual emergia um
cortejo de estátuas da cor da tempestade. Na entrada do recinto, encontrei uma guarita
onde um vigia envolto num casaco esquentava as mãos no hálito de um braseiro. Quando
me viu aparecer por entre a chuva, levantou sobressaltado. Examinou-me alguns
segundos antes de abrir a portinhola.
— Estou procurando o mausoléu da família Marlasca.
— Vai escurecer em menos de meia hora. Melhor voltar outro dia.
— Quanto mais rápido disser onde fica, mais rápido irei embora.
O vigia consultou uma lista e mostrou a localização, assinalando com o dedo sobre o
mapa do cemitério pendurado na parede. Afastei-me sem agradecer.
Não foi difícil encontrar o mausoléu no meio da cidadela de túmulos e jazigos que se
aglomeravam dentro dos muros do campo-santo. A estrutura tinha sido construída sobre
uma base de mármore. De estilo modernista, o mausoléu descrevia uma espécie de arco
formado por duas grandes escadarias dispostas em forma de anfiteatro, que subiam até
uma galeria sustentada por colunas, cujo interior abrigava um pátio cercado pelas lápides.
Uma cúpula coroava a galeria e ostentava no vértice uma figura de mármore escurecido.
Seu rosto estava escondido por um véu, mas quando se chegava mais perto do jazigo
dava a impressão de que aquela sentinela do além-túmulo girava a cabeça, seguindo
quem se aproximasse. Subi por uma das escadarias e, quando cheguei na entrada da
galeria, parei e olhei para trás. Entreviam-se as luzes da cidade por entre a chuva, ao
longe.
Entrei na galeria. A estátua de uma figura feminina abraçada a um crucifixo em atitude
de súplica erguia-se bem no centro. Seu rosto tinha sido desfigurado a golpes e alguém
tinha pintado os olhos e os lábios de negro, dando-lhe um aspecto lupino. Aquele não era o
único sinal de profanação do mausoléu. As lápides exibiam marcas ou arranhões que
pareciam ter sido feitos com algum objeto pontiagudo e algumas estavam cobertas de
desenhos obscenos e palavras que mal dava para ler na penumbra. O túmulo de Diego