O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 294
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Marlasca ficava no fundo. Peguei o retrato de Marlasca que Salvador tinha me dado e
examinei.
Foi então que ouvi os passos na escadaria que dava acesso ao mausoléu. Guardei o
retrato no casaco e virei de frente para a entrada da galeria. Os passos tinham parado e
não se ouvia nada além da chuva batendo sobre o mármore. Aproximei-me
cautelosamente da entrada e enfiei a cabeça do outro lado. A silhueta estava de costas,
contemplando a cidade à distância. Era uma mulher vestida de branco com a cabeça
coberta por um manto. Virou lentamente e olhou para mim. Sorria. Apesar dos anos,
reconheci de imediato. Irene Sabino. Dei um passo em sua direção e só então compreendi
que havia mais alguém às minhas costas. O impacto na nuca projetou um espasmo de luz
branca. Senti que caía de joelhos. Um segundo mais tarde desmoronei sobre o mármore
encharcado. Uma silhueta escura recortava-se contra a chuva. Irene ajoelhou-se a meu
lado. Senti sua mão rodear minha cabeça e apalpar o lugar onde tinha recebido a pancada.
Vi como seus dedos voltavam banhados de sangue. Acariciou meu rosto com eles. A
última coisa que vi antes de perder os sentidos foi que Irene Sabino extraía uma navalha
de barbear e começava a abri-la devagar, gotas prateadas deslizando pelo fio, enquanto
ela se aproximava de mim.
Abri os olhos ao brilho ofuscante de uma lamparina a óleo. O rosto do vigia me
observava sem expressão alguma. Tentei piscar enquanto uma labareda de dor
atravessava meu crânio a partir da nuca.
— Está vivo? — perguntou o vigia, sem especificar se a questão era dirigida a mim ou
não passava de simples retórica.
— Sim — gemi. — Não se atreva a enfiar-me nalgum buraco.
O vigia ajudou-me a levantar. Cada centímetro me custava uma pontada na cabeça.
— O que houve?
— O senhor é quem sabe. Já devia ter fechado há uma hora, mas como não o vi
voltar, vim ver o que estava acontecendo e encontrei o senhor aqui, curtindo o porre.
— E a mulher?
— Que mulher?
— Eram duas.
— Duas mulheres?
Suspirei, negando.
— Pode me ajudar a levantar?