O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 292
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
me dedicava a alguma daquelas tarefas domésticas minha categoria moral ganhava
pontos aos olhos de minha assistente.
Foi então que percebi que havia algo encaixado entre o colchão e o estrado. Uma
ponta de papel aparecia por baixo da dobra do lençol. Quando puxei, verifiquei que se
tratava de um maço de papéis. Puxei completamente e descobri que tinha em mãos cerca
de vinte envelopes de papel azul amarrados com uma fita. Senti que uma sensação de frio
me invadia, mas neguei comigo mesmo. Desfiz os nós da fita e peguei um dos envelopes.
Tinha meu nome e endereço. No verso, apenas o nome do remetente: Cristina.
Sentei na cama de costas para a porta e examinei os envelopes um a um. O primeiro
tinha várias semanas, o último, três dias. Todos os envelopes estavam abertos. Fechei os
olhos e senti que as cartas caíam de minhas mãos. Foi quando a ouvi respirar atrás de
mim, imóvel na entrada do quarto.
— Perdoe-me — murmurou Isabella.
Aproximou-se lentamente e ajoelhou para pegar as cartas, uma a uma. Quando juntou
todas elas num maço, entregou-me com um olhar ferido.
— Fiz isso para protegê-lo — disse.
Seus olhos encheram-se de lágrimas e pousou a mão em meu ombro.
— Saia — disse.
Afastei-a de mim e levantei. Isabella deixou-se cair no chão, gemendo como se
alguma coisa a queimasse por dentro.
— Saia dessa casa.
Saí de lá sem me preocupar em fechar a porta às minhas costas. Cheguei na Rua e
deparei-me com um mundo de fachadas e rostos estranhos e distantes Saí caminhando
sem rumo, alheio ao frio e àquele vento cheio de chuva que começava a açoitar a cidade
como o hálito de uma maldição.