PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
O inspetor observou-me com o que me pareceu ser genuína preocupação.— Tem alguma coisa para me contar? Sei que não vai acreditar, mas gostaria de poder ajudá-lo.— Ainda acredita que fui eu quem matou Barrido e seu sócio? Grandes negou.— Nunca acreditei nisso, mas outras pessoas bem que gostariam.— Então por que está me investigando?— Calma. Não estou investigando você, Martín. Nunca o investiguei. No dia em que resolver investigá-lo, logo vai perceber. Por enquanto, estou apenas observando, porque caiu em minha simpatia e não quero que se meta em nenhuma confusão. Por que não confia em mim e diz o que está acontecendo?
Nossos olhares se encontraram e, por um instante, fiquei tentado a confessar tudo. E teria feito isso mesmo, se soubesse por onde começar.— Não está acontecendo nada, inspetor. Grandes fez que sim e olhou para mim com pesar, ou talvez fosse apenas decepção. Acabou a cerveja e deixou algumas moedas na mesa. Deu um tapa em minhas costas e levantou.
— Tome cuidado, Martín. E veja bem onde pisa. Nem todo mundo tem por você a mesma estima que eu.— Não vou esquecer. Era quase meio-dia quando voltei para casa sem conseguir afastar o pensamento daquilo que o inspetor tinha me contado. Quando cheguei na casa da torre, subi os degraus da escada lentamente, como se até a alma me pesasse. Abri a porta de entrada, temendo encontrar Isabella cheia de vontade de conversar. A casa estava em silêncio. Percorri o corredor até a galeria do fundo e a encontrei lá, adormecida no sofá com um livro aberto no peito, um de meus velhos romances. Não pude deixar de sorrir. A temperatura dentro da casa tinha baixado sensivelmente naqueles dias de outono e fiquei com medo que Isabella se resfriasse. Às vezes, eu a via andando pela casa com uma manta de lã nos ombros. Dei um pulo até seu quarto para pegar a manta e cobri-la em segredo. A porta estava entreaberta e, embora estivesse em minha própria casa, na verdade não tinha entrado naquele quarto desde que Isabella tinha se instalado ali, e não me senti à vontade ao fazê-lo agora. Vi a manta dobrada sobre uma cadeira e entrei para pegá-la. O quarto cheirava àquele aroma doce, meio de limão, de Isabella. A cama ainda estava desfeita e inclinei-me para alisar os lençóis e cobertores, porque sabia que quando