O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 290

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Ainda não, meu amigo. Sabe como eu sou. Velha escola. A honra e essas merdas todas. — Pena. — Mas diga, como está o pobre Ricardo Salvador? Acredita que faz uns vinte anos que não ouvia esse nome? Todos o davam como morto. — Um diagnóstico precipitado. — E como está afinal? — Sozinho, traído e esquecido. O inspetor concordou lentamente. — Faz a gente pensar no futuro que essa profissão pode oferecer, não é? — Aposto que em seu caso as coisas vão ser diferentes e a subida aos mais altos cargos da corporação será coisa de alguns poucos anos. Posso vê-lo como comandante geral da corporação antes dos 45, beijando mãos de bispos e generais do Exército no desfile do dia de Corpus Christi. Grandes balançou a cabeça lentamente, ignorando meu tom sarcástico — Falando de beija-mãos, já ouviu a última de seu amigo Vidal? Grandes nunca começava uma conversa sem ter um ás escondido na manga. Observou-me sorridente, saboreando meu desassossego. — O que houve? — murmurei. — Dizem que na outra noite sua esposa tentou se suicidar. — Cristina? — Claro, é verdade, você a conhece... Não percebi que tinha levantado e que minhas mãos tremiam. — Fique tranqüilo. A Sra. Vidal está bem. Foi apenas um susto, nada mais. Ao que tudo indica, exagerou um pouco com o láudano... Mas por favor, sente-se, Martín. Por favor. Sentei. Meu estômago se contraía num nó de pregos. — Quando foi isso? — Uns dois ou três dias atrás. A imagem de Cristina na janela da Villa Helius alguns dias atrás me veio à memória, cumprimentando-me com a mão, enquanto eu desviava os olhos e lhe dava as costas. — Martín? — chamou o inspetor, passando a mão diante de meus olhos como se eu tivesse partido. — Que foi?