O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 29

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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A gente não sabe o que é sede até beber pela primeira vez. Três dias depois de minha visita a El Ensueño, a memória da pele de Chloé queimava até meus pensamentos. Sem dizer nada a ninguém— e menos ainda a Vidal—, resolvi juntar minhas parcas economias e ir até lá à noite, na esperança de que fossem suficientes para comprar um instante que fosse em seus braços. Passava de meia-noite quando cheguei à escada de paredes vermelhas que levava a El Ensueño. A luz da escadaria estava apagada e subi lentamente, deixando para trás a ruidosa cidadela de cabarés, bares, music halls e locais indefiníveis que se espalharam pela Rua Nou de la Rambla durante os anos da grande guerra na Europa. A luz trêmula que se filtrava pela porta de entrada ia desenhando os degraus à minha passagem. Chegando ao patamar, parei e comecei a tatear a porta em busca da aldrava. Meus dedos roçaram no pesado batedor de metal e, ao levantá-lo, a porta cedeu alguns centímetros e vi que estava aberta. Empurrei suavemente. Um silêncio absoluto acariciou meu rosto. Diante de mim, abria-se uma penumbra azulada. Dei alguns passos, desconcertado. O eco das luzes da Rua piscava no ar, revelando visões fugazes das paredes nuas e do chão de madeira todo quebrado. Cheguei à sala que tinha visto forrada de veludo e com mobiliário suntuoso. Estava vazia. O manto de poeira que cobria o chão brilhava como areia sob os reflexos dos luminosos da Rua. Avancei deixando um rastro na poeira. Não havia sinal do gramofone, das poltronas, nem dos quadros. O teto estava arrebentado e entreviam-se vigas de madeira escurecida. A pintura das paredes pendia em tiras como peles de serpente. Fui para o corredor que levava ao quarto onde tinha encontrado Chloé. Atravessei aquele túnel escuro até chegar à porta de folha dupla, que já não era branca. Não havia maçaneta, apenas um buraco na madeira, como se ela tivesse sido arrancada. Abri a porta e entrei.
O quarto de Chloé era uma cela escura. As paredes estavam carbonizadas e a maior parte do teto tinha desmoronado. Podia ver o lençol de nuvens negras que cruzavam o céu e a lua, que projetava sua luz prateada sobre o esqueleto metálico do que tinha sido um leito. Foi então que ouvi o chão estalar às minhas costas e virei rapidamente, compreendendo que não estava sozinho naquele lugar. Uma silhueta escura e afilada, masculina, recortava-se na entrada do corredor. Não podia ver seu rosto, mas tinha certeza de que estava me observando. Permaneceu ali, imóvel como uma aranha durante alguns segundos, o tempo que levei para reagir e dar um passo em sua direção. Num