O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 287

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— A única que conheço. Para mim, aquele homem parecia estar seriamente desequilibrado e não quis me aproveitar dele. Essas coisas nunca acabam bem. Nesse nosso negócio, existe um limite que quem sabe onde pisa não deve ultrapassar. Podemos atender quem vem procurar diversão ou um pouco de emoção e consolo do além e cobramos pelos serviços prestados. Mas quem vem à beira de perder a razão deve ser mandado de volta para casa. Esse é um espetáculo como um outro qualquer. O que procuramos são espectadores, não iluminados.— Uma ética exemplar. O que disse então a Marlasca?— Disse que tudo aquilo eram superstições, histórias. Disse que era um farsante que ganhava a vida organizando sessões de espiritismo para pobres infelizes que tinham perdido seus entes queridos e queriam acreditar que amantes, pais e amigos esperavam por eles no outro mundo. Disse que não havia nada do outro lado, só um grande vazio, que esse mundo era tudo o que tínhamos. Disse que esquecesse dos espíritos e voltasse para sua família.— E ele acreditou?— Claro que não. Parou de comparecer às sessões e procurou ajuda em outro lugar.— Onde?— Irene foi criada nas barracas da praia do Bogatell e embora tivesse feito fama dançando e representando no Paralelo, continuava pertencendo àquele lugar. Ela me contou que tinha levado Marlasca para ver uma mulher que todos chamavam de Bruxa do Somorrostro para pedir proteção contra essa pessoa com a qual Marlasca estava em dívida.— Irene mencionou o nome dessa pessoa?— Se o fez, eu não lembro. Como disse, eles deixaram de comparecer às minhas sessões.— Andreas Corelli?— Nunca ouvi esse nome.— Onde posso encontrar Irene Sabino?— Já lhe disse tudo o que sei— respondeu Roures, exasperado.— Uma última pergunta e vou embora.— Vamos ver se é verdade.— Lembra de ter ouvido Marlasca mencionar alguma vez uma coisa chamada Lux
Aeterna? Roures franziu a testa e negou.