O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 286
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Não sei. Não voltei a vê-lo desde o dia em que Marlasca morreu. Já disse tudo o
que sabia a Salvador e aos outros policiais. Nunca menti. Nunca. Se Jacó fez algo, nunca
tive conhecimento, nem obtive benefício algum.
— E o que me diz de Irene Sabino?
— Irene amava Marlasca. Ela nunca teria feito coisa alguma para prejudicá-lo.
— Sabe o que foi feito dela? Ainda vive?
— Acho que sim. Disseram que está trabalhando numa lavanderia do Raval. Irene era
uma boa mulher. Boa até demais. Acabou assim. Acreditava naquelas coisas. Acreditava
com todo o coração.
— E Marlasca? O que estava procurando no outro mundo?
— Marlasca estava metido em alguma coisa, mas não me pergunte o quê. Algo que
nem eu nem Jacó tínhamos vendido ou poderíamos vender para ele. Tudo o que sei é o
que ouvi Irene dizer certa vez. Ao que tudo indica, Marlasca tinha encontrado alguém,
alguém que eu não conhecia, e olhe que conhecia e conheço tudo e todos nessa profissão,
que prometeu que se fizesse uma certa coisa, não sei o quê, conseguiria trazer seu filho
Ismael de volta do meio dos mortos.
— Irene contou quem era esse alguém?
— Ela nunca o viu. Marlasca não permitia que o visse. Mas sabia que ele tinha medo.
— Medo de quê?
Roures estalou a língua.
— Marlasca acreditava que estava amaldiçoado.
— Explique melhor.
— Já lhe disse antes. Estava doente. Convencido de que algo tinha se apoderado de
seu corpo.
— Alguma coisa?
— Um espírito. Um parasita. Sei lá. Olhe, nesse negócio você acaba conhecendo
muita gente que não está exatamente em seu juízo perfeito. Uma tragédia pessoal
acontece, a perda de um amante ou de uma fortuna, e eles caem no buraco. O cérebro é o
órgão mais frágil do corpo. O Sr. Marlasca não estava em seu juízo perfeito, e isso poderia
ser visto por com qualquer um que conversasse ele cinco minutos. Foi por isso que me
procurou.
E você lhe disse exatamente o que ele queria ouvir.
— Não. Eu lhe disse a verdade.
— Sua verdade?